quinta-feira, março 29, 2007

Vôo Solo


Vôo Solo

Disse Tom, que é impossível SER feliz sozinho...Talvez. Mas, se felicidade é um estado, é mais viável, ESTAR feliz. Há tanta coisa que me deixa feliz sozinha! Uma manhã de sol , céu “azul escândalo”, nuvem branca ou dourada, estrela cadente, sol nascente ou poente, lua cheia, nova ou crescente, grama orvalhada entre os dedos, botão de flor se abrindo, cantiga de passarinho, vento no bambuzal, silêncio total, dança de borboleta, bater de asas, queda dágua, espuma de onda, conchinha na areia, pedrinhas, chuva no telhado, um belo filme, um bom livro, uma canção suave, lavanda e alecrim, tomate com manjericão, macarrão quatro queijos, peixe no prato, vinho tinto seco merlot, bombom Ferrero Rocher, chocolate com menta, malas prontas pra viagem.

É, viajar sozinha, por que não? Muitas vezes viajei só, mas sempre havia alguém a minha espera. Dessa vez fui comigo mesma ao encontro de ninguém. Poderia escolher um “pacote”, ir de avião. Mas queria saber como anda a envergadura das minhas asas e minha capacidade de sobreviver só. Então, mãos à massa: escolher destino, hotel, o que fazer, onde comer, reduzir a bagagem ao estritamente necessário. Pantanal estava nos meus planos de outros carnavais e não é porque o vento mudou de direção que vou arriar as velas.
Primeiro inconveniente de viajar sozinha é não saber quem vai ocupar o assento ao lado e quase sempre é uma criatura espaçosa, com as pernas maiores que a cadeira e a cabeça pendente que insiste em cair no nosso ombro; por seis horas viajei em paz com minha janela, ninguém ao lado. Mas se era um teste de sobrevivência, não podia faltar a tal criatura...e veio um kit completo de grosseria; cheirava a álcool, despencou na cadeira feito um pacote, tirou os sapatos exalando gorgonzola, escancarou as pernas invadindo meu espaço. Fuzilei-o com um olhar que dizia tudo que precisava ouvir, baixei decididamente o braço separador das poltronas, fiz uma barreira com a bolsa que continha algumas coisinhas pontiagudas, enfiei os fones nos ouvidos, concentrei-me na paisagem voando pela janela e na música que não conseguia abafar o ronco da criatura que caiu em coma alcoólico e quatro horas depois desembarcou deixando-me em paz outra vez. Apesar disso, da precariedade das estradas e dos terminais rodoviários, por toda a beleza que conheci, voltaria ainda que de pau-de-arara. Meu vôo solo, acabou não sendo tão solo assim, pois como diz Dominguinhos, “amigos a gente encontra, o mundo não é só aqui...” No primeiro passeio estava com duas paulistas e onze alemães; no começo da manhã todo mundo isolado, cada um no seu canto...no fim da tarde eu já trocava informações com um casal alemão que mora no Rio Grande do Sul e despedi-me das paulistas com beijinhos e troca de e-mail; o taxista que deveria apenas me levar e buscar , tornou-se meu “guiamigo” nos dias seguintes. Decididamente, não estamos sós; para atrair gente basta descruzar os braços, olhar em volta e abrir ou entreabrir um sorriso, ainda que do tipo “Monalisa”, como dizem ser o meu. Já para atrair borboletas aprendi que é só fazer um “suco” de banana com água e açúcar e derramar no local onde se deseja tê-las; vou testar. E assim foi minha deliciosa aventura: acordar com uma orquestra de aves, ter a companhia de sanhaço azul no café da manhã, conviver com gente simples que desconhece o significado de muitas palavras, mas sabe perfeitamente o que é integridade e honestidade; gente que convive com bichos do mato como se fossem domésticos, respeitando e protegendo-os, gente que conhece a riqueza das matas pantaneiras que guardam verdadeiras farmácias: há plantas que servem de colírio, de antibiótico, de analgésico, de alimento; enfim num lugar onde não há médico, a mata resolve tudo.
É isso. Considero-me aprovada no teste: as asas, o GPS e o ímã pessoal funcionando direitinho. Aguardem-me cidades históricas de Minas, floresta amazônica, Fernando de Noronha, Campos do Jordão, Serras Gaúchas, Foz do Iguaçu, Machu Picchu, não necessariamente nessa ordem.

É possível sim estar feliz, sozinho; pelo menos, sozinha é.

À minha meia dúzia de visitantes, eis o meu novo álbum de fotos:

sexta-feira, março 16, 2007

Desamor


DESAMOR



Essa foto, que batizei de “Desamor”, rendeu-me um prêmio em um concurso de fotografia realizado em 2005, por um programa de saúde do Órgão em que trabalho. O tema era “Dependência: caminhos incertos”. Sei que a classificação não se deveu à qualidade da foto, nem à beleza (ou ausência de beleza), mas à idéia; foram abordados vários tipos de dependência, mas essa que costumamos apelidar de “dependência amorosa”, se não me engano, só eu lembrei. Estou falando da foto, porque foi ela que me veio à mente quando soube da tragédia que vitimou uma colega de trabalho que há mais de uma semana é triste manchete de jornais e tema de discussão diária. Dizemos que é um absurdo uma mulher bem informada, independente, chegar ao ponto de se matar por amor; sei que estou sendo repetitiva, mas amor não mata, não escraviza; para que se ame alguém, antes é preciso amar-se. Quem já não se respeita, não exige respeito, põe a própria vida nas mãos de outro, perdeu o amor próprio e portanto não pode amar. Apenas necessita tanto desse outro que se deixa morder pelo vampiro, que vê amor num pacto de morte, se é que houve isso. Há quem não acredite na hipótese de suicídio, visto que ela teria fortes convicções religiosas; mas penso eu, que direta ou indiretamente, foi suicídio sim...e vinha ocorrendo lentamente, desde que perdida a capacidade de se defender do ataque do pior ladrão que pode haver; o ladrão que aproveita a carência, a boa fé de alguém que comete o grande pecado de sonhar, de querer ser amada, e rouba-lhe a identidade, a alma. E então já não havia convicção nenhuma, apenas um deixar-se arrastar ao precipício. Para mim, Cida não morreu por amor. Matou-se com uma overdose de DESAMOR.

quinta-feira, março 08, 2007

Dia Internacional do Homem


Dia Internacional do homem

Que é bom receber flores, abraços, bombons, mensagens dos amigos comemorando o “Nosso Dia”, não dá pra negar; mas cá pra nós, tem coisa mais machista que “um”dia pra reconhecer o valor da mulher? Quer prova maior de que mulher ainda é considerada minoria? Ao que parece só minorias têm direito a datas comemorativas. Dia do Índio, Dia da Consciência Negra, Dia Internacional da Mulher...Qual é mesmo o dia do Macho Branco?
Mas pra quem não tinha direito a votar, a pensar, a trabalhar fora da cozinha, a participar das conversas e das refeições dos homens, até que evoluímos muito.
Tenho raiva e pena quando penso em mulheres como minha avó;.trabalhavam na roça pra ajudar os maridos, lavavam roupa no rio, açude ou cacimba, cozinhavam em fogão a lenha, torravam e pilavam café e ainda engomavam os ternos brancos dos senhores maridos que iam passar as noites com as quengas no cabaré, enquanto as esposas ficavam em casa cuidando de uma penca de filhos, feitos quando os maridos resolviam “usá-las” na cama e servir de boa vontade, ignorando a traição, era obrigação de mulher. Que mais elas podiam querer? Eles as sustentavam.
Hoje, apesar de termos de conviver com piadinhas idiotas que nos responsabilizam por todas as barbeiragens do trânsito, que nos taxam de assexuadas, se não damos muita bola pra homem, de galinha se damos demais (bola pra homem); se somos magrinhas, não “servimos pra uso”(ainda bem, quem serve pra uso é boneca inflável) ou quem gosta de osso é cachorro; se somos gordinhas, quem gosta de muita carne é açougueiro; se somos vaidosas, peruas; se não, relaxadas, não nos cuidamos; por aí vai. Apesar disso tudo e das que ainda se deixam escravizar pelos caprichos masculinos é bom ser mulher e saber que muitos homens consideram a mulher algo mais que um ser de cabelos longos e idéias curtas , ou um bicho com duas protuberâncias superiores na frente e duas inferiores atrás e que se alimenta de cartão de crédito masculino. É bom lembrar que temos o dom de aninhar vida no ventre, nos seios, nos braços, no colo. Vestidas de seda ou de chita, de salto ou de pé no chão, de mãos macias ou calejadas, plantando a semente ou amassando o pão, lavando a roupa ou desfilando moda, fazendo leis ou curando a dor, desatando nós ou estancando sangue; garotas da capa, de rua ou de programa, senhoras beatas, executivas, meretrizes ou meritíssimas; filhas, mães, sogras, avós, amigas, amantes, esposas, madrastas, madrinhas, todas somos belas na importância de nossa missão: Suavizar o mundo. Se falhamos, não é pela nossa condição feminina, é pela condição humana de imperfeição. Nunca seremos iguais ao homem, nem queiramos ser! Não queiramos ser superiores, mas também não deixemos que nos inferiorizem .Fomos feitos diferentes para um completar o outro. Que tal lembrarmos sempre, homens e mulheres, que somos todos feitos de um homem + uma mulher? Então comemoremos todos os dias, o Dia Internacional do Homem ser humano.
(A foto é de uma escultura exposta no Museu de Arte de Brasília em fevereiro de 2006. Pequei em não ter registrado o nome do autor. perdão!)

terça-feira, março 06, 2007

Blogs e caderninhos


Benditos blogs! Tenho descoberto tesouros!
Desde que me entendo por gente tenho a necessidade de escrevinhar...só há pouco soube que o que muitas vezes fiz é uma valiosa terapia: escrever, escrever sempre...se no final achar que o monstro ta muito cabeludo, rasgar...hoje, deletar. Tenho um caderninho , azul só pra variar, que apelidei o cofre da minha alma. Mantive muito bem escondido e nunca, nunca mesmo havia mostrado a alguém...até que um dia, não muito distante, conhecei alguém que acreditei ser minha outra asa, a metade da laranja, o amor terminal, aquele que não acaba mesmo quando um dos dois velhinhos parte pro outro lado, porque logo o outro vai e lá se reencontram...pois é, certa vez, num gesto patético, como são patéticos todos os gestos apaixonados,(isso não é um lamento, ainda espero recuperar a capacidade de ficar patética, é muito bom!) entreguei ao meu amado, meu caderninho azul dizendo: estou te entregando a minha alma. Depois soube que alma e sentimentos valiam menos que lixo; mas muita coisa boa aprendi com ele; por exemplo: devia mostrar “minha alma” a mais pessoas. Vi que tinha razão; mostrar não dói e ás vezes alivia a dor; minha ou a de quem lê. Digo isso, porque ontem mesmo ouvi de uma colega, palavras que me fizeram sentir um pouquinho útil: “ Vilma suas últimas abobrinhas, levantaram meu astral. Obrigada!” Obrigada, digo eu, pois é isso que importa. Não faço a mínima questão de saber quantos viram, quantos comentários recebi. Importa e muito, quando alguém que realmente vale a pena diz: você me fez rir, você me fez sonhar, você me fez chorar. Bendito seja então esse belo podre mundo virtual que nos oferece, como tudo na vida, o lado bom e o ruim. Meu caderninho continua ativo, bem guardadinho e guardando as coisinhas impublicáveis; mas vim aqui hoje pra falar da facilidade que os blogs nos oferecem para encontrar caminhos das
pedras (preciosas ou de atirar). Das preciosas, descobri uma amostra no “Tantas Palavras” do Correio Braziliense, cantinho de que sou fã confessa: Aí vai:

OUTRA RECEITA
Armando Freitas Filho

Da linguagem, o que flutua
Ao contrário do feijão à João
É o que se quer aqui, escrevível:
O conserto das palavras, não só
O resultado final da oficina
Mas o ruído discreto e breve
o rumo de rosca, a relojoaria
do dia e do sentido se fazendo
sem hora para acabar, interminável
sem acalmar a mesa, sem o clic
final, onde se admite tudo –
o eco, o feno, a palha, o leve –
até para efeito de contrate
para fazer do peso - pesadelo.
E em vez de pedra quebra-dente
Para manter a atenção de quem lê
Como isca, como risco, a ameaça
Do que está no ar, iminente.

Segundo o “Correio” a fonte é: http//asescolhasafectivas.blogspot.com/2006/08/armando-freitas-filho-foto-j.html

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Percepções


Dizem que cristais têm mistério: não os escolhemos, eles nos escolhem.
Assim como o amor, assim como a morte, assim como a luz.

Não adianta fugir nem buscar desesperadamente. Sabem onde e quando nos encontrar.
Na hora certa, nada pode impedir; se ainda não é tempo, nada pode impelir.

Um dia, a imagem...um olhar “contraluz”, um enxergar de olhos fechados, negativos multicores da janela da alma. Uma noite, as palavras, em gritante silêncio, quebrando a corrente, feito peixe em piracema.



PERCEPÇÕES


Cristal...opaca presença
De ausência indefinida
Infinda
Insolúvel
Indelével
Impalpável
Indescritível,
Indiscutível
Inodora
Insípida
Sem modos
Sem medo
Sem razão
Latente presença
Ausência cristalina
Perceptível.

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Anjos e Borboletas


Anjos e Borboletas



Quem me conhece sabe da minha paixão por borboletas ...recebo poemas, reportagens, fotos e até asas de borboletas...mas que fique bem claro que jamais aceitaria que alguém matasse borboleta ou comprasse morta para me dar; as que tenho foram encontradas mortas no jardim, dentro de um lustre, ou o vento trouxe; guardo então com dó e com carinho, porque gosto mesmo é de vê-las voando leves e soltas como sonhos.Mas quero mesmo falar é sobre o prazer doentio, a vaidade sem limites que para se satisfazer desrespeita a vida; é mais que comum, em pontos de parada nas rodovias, nos lugares onde vendem coisinhas para turistas, objetos de enfeite feitos com belíssimas asas de borboletas; se antes de comprar se pensasse no massacre que produz aquela beleza morta, esse comércio cruel deixaria de existir.Semana passada, recebi um e-mail sobre um absurdo sem tamanho: a marca Cantão teria criado sandálias de salto de acrílico recheado de borboletas para beldades de cabeça oca pisarem em borboletas pelo precinho módico de R$1.200,00. Não quero acreditar que seja verdade, mas tudo indica que é. Coisas assim me fazem sentir vergonha de pertencer à raça humana...a raça que chama de animalescos os instintos que alimentam podridões como a escravização de crianças para satisfazer sexualmente homens que se comportam pior que bestas, que me perdoem as bestas, pois pelo que se sabe os animais respeitam e protegem os filhotes próprios e dos outros. Vemos todos os dias documentários sobre prostituição infantil, mas nem sempre paramos para pensar nas verdadeiras cores desse quadro macabro.O filme brasileiro “Anjos do Sol”, de Rudi Lageman, mostra cruamente histórias de meninas vendidas como coisas a monstros que não se pode chamar de homem que usam e abusam de criaturinhas inocentes tratando-as como “carne nova” forçando-as a todo tipo de humilhação e deixando-as vazias de qualquer oportunidade de vida, de dignidade.
Há quem vá dizer: que mistura é essa de menina prostituída com borboleta morta? É a mesma coisa que move as duas imundícies: A busca do prazer a qualquer preço.Se não houvesse comprador, deixariam de produzir a “mercadoria”.
Borboletas querem voar, meninas querem crescer, amar e sonhar.

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Um passo à frente


À beira de um precipício só há uma maneira de andar para a frente:

é dar um passo atrás.

(M. de Montaigne)

Lá e Cá...


Lá não é melhor que aqui. Quando o seu lá se tornar aqui, você simplesmente encontrará outro lá que parecerá novamente melhor que aqui.

(Autor desconhecido)



Porque depois de uma curva vem outra mais sedutora, porque toda onda quebrada vira espuma, porque depois de comprado o brinquedo perde o brilho... porque quebrado o encanto da descoberta... que resta do novo?

O Prazer...


O prazer é como certas substâncias medicinais: para obter constantemente os mesmos efeitos é preciso aumentar a dose; e a última provoca a morte ou o embrutecimento.
(Autor desconhecido)

Idade do Céu


"Não somos mais que uma gota de luz..."

Mais um rico poema musicado...



Idade do Céu

( Simone/Zélia Duncan)
Composição: Paulinho Moska




Não somos mais

Que uma gota de luz

Uma estrela que cai

Uma fagulha tão só

Na idade do céu


Não somos o que queríamos ser

Somos um breve pulsar

Em um silêncio antigo

Com a idade do céu


Calma

Tudo está em calma

Deixe que o beijo dure

Deixe que o tempo cure

Deixe que a alma

Tenha a mesma idade

Que a idade do céu


Não somos mais

Que um punhado de mar

Uma piada de Deus

Um capricho do sol

No jardim do céu


Não damos pé

Entre tanto tic tac

Entre tanto Big Bang

Somos um grão de sal

No mar do céu


Calma

Tudo está em calma

Deixe que o beijo dure

Deixe que o tempo cure

Deixe que a alma

Tenha a mesma idade

Que a idade do céu

A mesma idade

Que a idade do céu

terça-feira, janeiro 30, 2007

Barco vai, barco vem...


Quando temos os olhos presos ao ponto em que o barco diminuiu, deixamos de ver que somos mares navegáveis e que há outro barco crescendo para nós.
É o que gritou a meus ouvidos este belo texto “pensante” que recebi como presente e do qual, infelizmente, desconheço o autor.


Abrindo espaços


Sempre me encantava, quando criança, ao ver embarcações desaparecerem na linha do horizonte, até onde meus olhos podiam enxergar. Acreditava que elas sumiam para sempre, via como criança, com beleza e imaginação e pensava que ali era o fim. E ficava lá, à deriva do mundo, olhando o diminuir dos barcos. O tempo passou, eu cresci e entendi que o diminuir não era de verdade, que no ponto onde eles sumiam não sumiam de fato e tudo que eu via era pelo olhar bonito e puro de quem ainda não aprendera sobre certos limites.

O tempo passou, eu cresci e descobri que eles, os barcos, diminuem para nossos olhos à medida em que crescem para outros olhos, que somem para nós, para surgir para alguém que, em algum lugar, divide conosco o ato mágico de velar o mar. Tudo isso veio à memória porque estava lendo Clarice Pinkola e ela fala do ciclo da vida-morte-vida, que morremos e nascemos muitas vezes, às vezes num mesmo dia, numa mesma semana, num mesmo mês, na mesma vida.

Fala que morte não é prenúncio do fim, mas de um início, e mais, diz que é nossa a tarefa de matar, matar algo para permitir que uma nova vida venha. Matar dentro de nós. Questão de espaço. Faz sentido. É que não comportamos tudo. Não há espaço para tanto sentir. E quando insistimos em manter vivos certos sentimento através de respiração artificial, não há espaço para nascer nada de novo.

Então temos que abrir o baú e matar dentro de nós mágoas, dores velhas ou novas, emoções empoeiradas, vícios humanos, escolhas erradas, ferimentos mantidos sangrando, decepções, conceitos obliterados, amores infelizes, imagens amareladas, relacionamentos passados, tristezas, amarguras, pessoas. E por aí vai. A lista é individual, cada um tem a sua. O que é comum a todos é a responsabilidade de, interiormente, exterminar, dar fim ao que é ruim para que algo novo e bom nasça. É fácil? Não mesmo.

A aparência de qualquer morte é sempre feia e matar internamente não é simples impulso, é decisão pensada, medida e avaliada. É fato que temos sempre a opção de continuar achando que os barcos do sentir seguem seu curso e, chegada a hora, ultrapassando a linha do horizonte do coração, morrerão por si sós. Mas na verdade isso significa manter no nosso âmago tudo, até o lixo que amealhamos, em arquivos abarrotados que crescem e crescem embotando a vida, e nos enganamos dizendo: são arquivos mortos.

É isso ou então encaramos a megera e aprendemos a matar. O que deverá morrer em mim hoje? Essa é a pergunta que ela sugere para começar. E eu, com a experiência de observadora criança, humildemente acrescento: não basta escolher dentro de nós o que vai morrer e em seguida matar. É preciso enterrar.
Porque às vezes o que nos fez mal já está pra lá de morto, mas mantemos mumificado dentro de nós para usarmos como referencial, para não esquecermos do que sofremos e não cairmos de novo nas mesmas armadilhas. Outro engano. Nada é igual nunca e dores embalsamadas não servem como exemplo, nem protegem, só paralisam. Não há fórmula. Não há bulas. A única maneira de viver é permitir que a vida nasça e morra e de novo nasça, tantas vazes quantas forem necessárias.

Portanto, para abrir espaços é necessário nos fazermos perguntas. E uma vez identificado o que não é bom e não nos serve mais, devemos dar-lhe a morte. Em seguida enterremos nosso morto, choremos um pouco e, cumprido o ritual, vistamo-nos com esmero para esperar. Algo bom estará nascendo. E agora? Bom, agora o mundo real chama, a vida grita, o tempo urge e eu, buscando palavras para encerrar a crônica, relembro que o fim é uma questão relativa, mas necessária. E olhando da janela para o horizonte que parece ser o fim, mas é também o princípio, finalizo para poder (RE)COMEÇAR!!!

segunda-feira, janeiro 29, 2007

As Asas


Certo é que há um "internetês" que de tão pobre causa náuseas...mas de repente, encontramos jóias como esta que descobri por acaso no site http://aaldeia.net/.

"...existe uma paz que não é a paz das coisas,..."

As asas

(Paulo Geraldo)


A vida é breve, a alma é vasta:

ter é tardar

(Fernando Pessoa, Mensagem).



Um homem demora muito tempo a fazer-se. Não somos como

aqueles passaritos que se soltam na imensidão dos céus

pouco tempo depois de terem visto a luz. Trazemos em nós

uma semente que demora a germinar, que gasta nessa

tarefa muitos anos de agitação e silêncio. É assim,

decerto, porque está destinada a dar um fruto muito

maior que o do pássaro.

Temos, sem dúvida, uma alma: raciocinamos, temos sede de

conhecer, somos capazes de amar e de escolher. Um animal

come necessariamente, se tiver fome e o alimento estiver

ao seu alcance. Um homem, nas mesmas circunstâncias,

pode não o fazer. Porque, por exemplo, resolveu fazer

dieta. Ou porque escolheu dar o seu alimento a outro que

tinha mais fome do que ele. Tem a possibilidade de viver

de acordo com outros critérios.

Há muitos séculos que chamamos alma a esse não-sei-quê

que faz parte de nós e nos permite viver num plano

superior ao das coisas simplesmente materiais. É como se

possuíssemos uma espécie de asas.

Sabemos apreciar um sofá confortável, um sono reparador,

um bom bife com batatas fritas. Mas precisamos de mais

do que isso. E damos por nós a perguntar "porquê?", ou a

discutir ideias. E descobrimos que há qualquer coisa -

não feita de células ou moléculas - que nos comove e nos

atrai numa paisagem, num gesto de heroísmo, num poema,

na música.

Há uma beleza e um bem que não são feitos de nada que se

possa tocar. Que não estão nas coisas, embora as coisas

nos levem a eles. Aquilo que é apenas material -

acabamos sempre por o descobrir - sabe a pouco e não nos

enche as medidas. Mas leva tempo a chegar aí.

Leva tempo até percebermos, por exemplo, que existe uma

paz que não é a paz das coisas, mas sim uma harmonia

interior que resulta de um comportamento correcto. E que

é esse o género de paz que nos interessa; que não nos

basta aquela paz que é feita somente de ausência de

vento ou de guerra.

Um homem tem de crescer não apenas corporalmente.

Deve atingir uma envergadura que ultrapassa em muito o âmbito

das coisas materiais. Deve fazer-se... homem.

É um caminho já de si longo. Ainda por cima, cometemos

com frequência a burrice de termos medo de ganhar asas.

De largar um pouco esses outros bens - mais pequenos,

mais baixos, mais... animais. É olhar e ver como muitas

vezes nos afadigamos correndo atrás da posse de bens

materiais e dos prazeres que não são senão para o corpo

e de que também gostamos. Ter, gozar, curtir, comprar,

comprar... Ter, ter, ter.

Mas sucede que o ter e o comprar e o curtir - usados de

um modo exagerado, como fazemos - nos atrasam.

Perdemos tempo.

Quem vive obcecado com a posse de prazeres e bens

materiais não tem acesso aos prazeres da alma. Passa ao

lado do bem e da beleza e do amor. Porque escolheu um

nível para a sua vida - o mais cómodo - e escolher uma

coisa é sacrificar as outras. Não é possível alcançar o

topo da montanha e, simultaneamente, permanecer deitado

à sombra lá em baixo.

Portanto, apressemo-nos. Pois, como escreveu o poeta,

ter é tardar...

quinta-feira, janeiro 25, 2007

A Alma dos Diferentes


Outro belo texto que recebi por e-mail e quero compartilhar com todos os diferentes, não diferentes ou indeferentes que me visitarem. Desconheço o autor.


Ah, o diferente, esse ser especial!

Diferente não é quem pretenda ser.
Esse é um imitador do que ainda não foi imitado, nunca um ser diferente.
Diferente é quem foi dotado de alguns mais e de alguns menos em hora, momento e lugar errados para os outros.
Que riem de inveja de não serem assim.
E de medo de não agüentar, caso um dia venham, a ser.

O diferente é um ser sempre mais próximo da perfeição.
O diferente nunca é um chato.
Mas é sempre confundido por pessoas menos sensíveis e avisadas.
Supondo encontrar um chato onde está um diferente, talentos são rechaçados; vitórias adiadas; esperanças mortas...

Um diferente medroso, este sim, acaba transformando-se num chato.
Chato é um diferente que não vingou.
Os diferentes muito inteligentes percebem porque os outros não os entendem.
Os diferentes raivosos acabam tendo razão sozinhos, contra o mundo inteiro.
Diferente que se preza entende o porque de quem o agride.
Se o diferente se mediocrizar, mergulhará no complexo de inferioridade.
O diferente paga sempre o preço de estar - mesmo sem querer - alterando algo, ameaçando rebanhos, carneiros e pastores.
O diferente suporta e digere a ira do irremediavelmente igual: a inveja do comum; o ódio do mediano.
O verdadeiro diferente sabe que nunca tem razão, mas que está sempre certo.
O diferente começa a sofrer cedo, já no primário, onde os demais de mãos dadas, e até mesmo alguns adultos por omissão, se unem para transformar o que é peculiaridade e potencial em aleijão e caricatura.

O que é percepção aguçada em: "Puxa, fulano, como você é complicado".
O que é o embrião de um estilo próprio em: "- Você não está vendo como todo mundo faz?"
O diferente carrega desde cedo apelidos e marcações os quais acaba incorporando.
Só os diferentes mais fortes do que o mundo se transformaram (e se transformam) nos seus grandes modificadores.
Diferente é o que vê mais longe do que o consenso.
O que sente antes mesmo dos demais começarem a perceber.

Diferente é o que se emociona enquanto todos em torno agridem e gargalham.
É o que engorda mais um pouco; chora onde outros xingam; estuda onde outros burram.
Quer onde outros cansam.
Espera de onde já não vem.
Sonha entre realistas.
Concretiza entre sonhadores.
Fala de leite em reunião de bêbados.
Cria onde o hábito rotiniza.
Sofre onde os outros ganham.

Diferente é o que fica doendo onde a alegria impera.
Aceita empregos que ninguém supõe.
Perde horas em coisas que só ele sabe importantes.
Engorda onde não deve.
Diz sempre na hora de calar.
Cala nas horas erradas.
Não desiste de lutar pela harmonia.
Fala de amor no meio da guerra.
Fala de amor no meio da guerra.
Deixa o adversário fazer o gol, porque gosta mais de jogar do que de ganhar.
Ele aprendeu a superar riso, deboche, escárnio, e consciência dolorosa de que a média é má porque é igual.

Os diferentes aí estão: enfermos, paralíticos, machucados, engordados, magros demais, inteligentes em excesso, bons demais para aquele cargo, excepcionais, narigudos, barrigudos, joelhudos, de pé grande, de roupas erradas, cheios de espinhas, de mumunha, de malícia ou de baba.
Aí estão, doendo e doendo, mas procurando ser, conseguindo ser, sendo muito mais.
A alma dos diferentes é feita de uma luz além.
Sua estrela tem moradas deslumbrantes que eles guardam para os pouco capazes de os sentir entender.
Nessas moradas estão tesouros da ternura humana.
De que só os diferentes são capazes.

Não mexa com o amor de um diferente.
A menos que você seja suficientemente forte para suportá-lo depois.

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Levezas de Cecília


Aqui está minha vida.

Esta areia tão clara com desenhos de andar

dedicados ao vento.

Aqui está minha voz,

esta concha vazia, sombra de som

curtindo seu próprio lamento

Aqui está minha dor,

este coral quebrado,

sobrevivendo ao seu patético momento.

Aqui está minha herança,

este mar solitário que de um lado era amor e,

de outro, esquecimento.

(Cecília Meireles)

Mulher Velha


Há algum tempo ouvi um famoso dizer: “ No dia em que me olhei no espelho e disse a mim mesmo que era um homem velho, fiquei em paz !”


Eu sou uma mulher velha! E não foi o espelho que me disse, sempre soube. Revirando o baú dos guardados encontrei um caderno amarelado por 35 anos de existência com estas palavras:
“Achamos por bem destacar na disciplina Técnicas de Serviços, alguns assuntos orientados por nossa professora, trabalhos feitos com a máxima boa vontade e que julgamos, muito nos servirão no futuro bem próximo. Eis uma síntese do que aprendi”.... Isso não é linguagem de uma menina de 13 anos...logo fui uma adolescente velha. Daí voltei um pouco mais no tempo e vi uma molequinha de 3 anos choramingando pelos cantos da casa, morta de sono e cansaço de uma viagem nada confortável, se lamentando: “ a gente só é desenhada nesse mundo pra sofrer” Isso não é linguagem de criança dessa idade, então fui uma criança velha; mas deixa explicar o “gente desenhada”...desde sempre gosto de desenhar; pedia a minha mãe um lápis pra “fazer gente” e ela dizia: “não é fazer gente, é desenhar gente...daí entendi que gente era coisa desenhada. Hoje tenho certeza disso...tem gente desenhada a lápis, a pena de nanquim, a aquarela e a ferro e fogo. Mudei de assunto...tudo bem, isso também é coisa de gente velha que atinge um certo "descaramento" de falta de compromisso com o padrão, com os ponto e vírgulas com os pontos finais e que fica mais à vontade com aspas e reticências. Voltando ao que estava dizendo...Que é mesmo ser velho? Como diz o Ziraldo tem suas vantagens; pra catarata tem cirurgia, pra dor na coluna tem caminhada e o bom mesmo é poder entrar em qualquer lugar sem pegar fila...Em pouco menos de vinte anos terei essa “regalia”; as rugas ainda são poucas, os cabelos brancos ainda dá pra arrancar, se quiser; a lei da gravidade ainda não fez muito estrago, pois como diz Rita Lee, o bom de não ter bundona nem peitão é que também não tem nada pra cair. Mas por saber que há um bicho que não morre, uma chama que não dorme; por ter vivido o bastante para saber que rótulos de propriedade não ficam bem em gente, que para se ter a companhia de bichos de asas não se usa gaiola, enfeita-se o jardim; que sentimentos profundos não precisam de “outdoors” nem de megafones; que mentiras repetidas não se tornam verdades; que para que haja frutos maduros no outono é necessário o frescor do inverno, o calor do verão e o explodir da primavera; por saber que o amor não submete, não é submisso nem aceita condições ; por acreditar que ETERNO é apenas o ciclo de nascer, aprender (ou perder a oportunidade), voltar ao lar e renascer e que o resto é passageiro; por preferir a mansidão dos lagos ao turbilhão das quedas dágua, um longo trote a um cansativo galope, a calma do ocaso à incerteza do acaso é que eu digo serenamente: Espelho, espelho meu, não estou velha , SOU UMA MULHER VELHA!

terça-feira, janeiro 23, 2007

A Máquina Moderna


Recebi de um amigo esta interessante crônica atribuída a Mário Prata. Fez-me pensar: quantas vezes nós também somos jogados no porão por julgarem " antiquadas" nossas qualidades ou atitudes...Mas o tempo que condena é o mesmo resgata.



A Máquina Moderna


(Mário Prata)

Ouve só. A gente esvaziando a casa da tia neste carnaval. Móvel, roupa de cama, louça, quadro, livro. Aquela confusão, quando ouço dois dos meus filhos me chamarem.

- Mãe!

- Faaala.

- A gente achou uma coisa incrível. Se ninguém quiser, pode ficar para a gente? Hein?

- Depende. Que é? (Os dois falavam juntos, animadíssimos)

- Ééé... uma máquina, mãe.
- É só uma máquina meio velha.

- É, mas funciona, está ótima!

Minha filha interrompeu o irmão mais novo, dando uma explicação melhor.

- Deixa que eu falo: é assim, é uma máquina, tipo um... teclado de computador, sabe só o teclado? Só o lugar que escreve?
-Sei.
- Então. Essa máquina tem assim, tipo...uma impressora, ligada nesse teclado, mas assim, ligada direto. Sem fio. Bem, a gente vai, digita, digita..Ele ia se animando, os olhos brilhando.

- ... e a máquina imprime direto na folha de papel que a gente coloca ali mesmo!

É muuuito legal! Direto, na mesma hora, eu juro!

Eu não sabia o que falar. Eu juro que não sabia o que falar diante de uma explicação dessas, de menina de 12 anos, sobre uma máquina de escrever. Era isso mesmo?

- ... entendeu mãe?... zupt, a gente escreve e imprime, a gente até vê a impressão tipo na hora, e não precisa essa coisa chata de entrar no computador, ligar, esperar hóóóras, entrar no word, de escrever olhando na tela, mandar para a impressora, esse monte de máquina, de ter que ter até estabilizador, comprar cartucho caro, de nada, mãe! É muuuito legal, e nem precisa de colocar na tomada! Funciona sem energia e escreve direto na folha da impressora!

- Nossa, filha...

- ... só tem duas coisas: não dá para trocar a fonte nem aumentar a letra, mas não tem problema. Vem, que a gente vai te mostrar. Vem...

Eu parei e olhei, pasma, a máquina velha. Eles davam pulinhos de alegria.

- Mãe. Será que alguém da família vai querer? Hein? Ah, a gente vai ficar torcendo, torcendo para ninguém querer para a gente poder levar lá para casa, isso é o máximo! O máximo!

Bem, enquanto estou aqui, neste 'teclado', estou ouvindo o plec-plec da tal máquina, que, claro, ninguém da família quis, mas que aqui em casa já deu até briga, de tanto que já foi usada.

Está no meio da sala de estar, em lugar nobre, rodeada de folhas e folhas de textos 'impressos na hora' por eles. Incrível, eles dizem, plec-plec-plec, muito legal, plec-plec-plec.
Eu e o Zé estamos até pensando em comprar outras, uma para cada filho. Mas, pensa bem se não é incrível mesmo para os dias de hoje: sai direto, do teclado para o papel, e sem tomada!

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Seu Nome

Contrastando com o lixo musical que explode feito praga por aí, surge como carícia aos ouvidos e à alma, ritmo com jeitinho de oriente, na doce voz de Luiza Possi o "poema" de Vander Lee:

Seu Nome

Quando essa boca disser o seu nome venha voando
Mesmo que a boca só diga o seu nome de vez em quando
Quando essa boca disser o seu nome venha voando
Mesmo que a boca só diga o seu nome de vez em quando

Posso enxergar no seu rosto um dia tão claro e
Luminoso
Quero provar desse gosto ainda tão raro e misterioso
Do amor

Quero que você me dê o que tiver de bom pra dar
Ficar junto de você é como ouvir o som do mar
Se você não vem me amar é maré cheia, amor
Ter você é ver o sol deitado na areia

Quando quiser entrar e encontrar o trinco trancado
Saiba que meu coração é um barraco de zinco todo
cuidado
Quando quiser entrar e encontrar o trinco trancado
Saiba que meu coração é um barraco de zinco todo
cuidado
Não traga a tempestade depois que o sol se pôr
Nem venha com piedade porque piedade não é amor

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Projeto Pra Daqui a Pouco


De pedra e madeira...muita janela e cortina de renda branca como as casinhas do Paraná...varanda dos quatro lados, com rede pra hora da preguiça; um cantinho pra escrever quadros e pintar poesia...espaço pra muito livro e coisinhas de valor como a mesinha projetada por um dos integrantes da minha “meia dúzia de loucos e santos”: um tronco, uma prancha de madeira uma camada de sementes coloridas, um tampo de vidro, ou quem sabe uma placa de cristal bem tortinha daquelas cortadas da pedra bruta dali de Cristalina.
Um jardim...não! O Jardim...com flor de toda cor pra chamar borboleta e beija-flor, periquito e bem-te-vi , sabiá e quem vier; no cantinho do jardim uma cascata pra ninar; no meio um lampião pras noites sem luar.
Um canteiro de cheiros...alecrim, hortelã, manjericão, capim santo, salsinha, coentro cebolinha.
Pé de manga, de jaca, de maracujá doce, de laranja, de banana, de acerola, de romã pros netos saberem que fruta não “nasce”em bandejinha de supermercado; ainda pros netos, meus ou de quem aparecer, boneca de pano, balanço de pneu no galho da mangueira, cantiga de roda, livrinhos de “Era uma vez.
Cozinha, claro pra soltar a imaginação e agradar ao paladar das visitas.
Quintal pra criar gato, coelho, cachorro, pato, galinha.
E música, muita música! de flauta, gaita, viola ou violão, cantiga de passarinho, vento no taquaral, risada de menino.
Foi sonho, agora é Meu Projeto pra daqui a pouco. Cinco anos voam, como voaram vinte, quarenta, quase cinqüenta.
Pensando em que me ocupar quando deixar a gaiola de concreto, o mundo das capas pretas e das “providências cabíveis”, tive vontade de ter um canto diferente, uma mistura de culinária com pintura, poesia, literatura e fotografia, algo assim como um “Café com Poesia” ou poesia com doce, arte com afeto, letra com açúcar ou coisa parecida... um lugar com a minha cara pra receber a minha preciosa meia dúzia de amigos que acabei de citar... não são sempre os mesmos, pois como naquela velha comparação da vida com uma viagem de trem, em “cada estação tem gente que vai, e gente que vem...uns fazem conosco uma viagem inteira, alguns um pequeno trecho, outros apenas uma estação”... o que vale é que trazem marcas que reconhecemos e deixam outras que não esquecemos; todos eles têm cheiro de flor, brilho de estrela, ouvem os sons do silêncio, conhecem o sabor do azul; é gente que sabe que o tamanho de um livro não se mede em centímetros e que gente não se avalia pela capa e nem vale quanto pesa; é gente que sabe que a primavera precisa do outono.
A essa gente, aviso que está lançada, em terra fértil, a semente do meu sonho projeto. Preparem então as mudas de flores que vão me dar de presente...de preferência descubram quais são as preferidas das borboletas azuis!

terça-feira, janeiro 16, 2007

Sem porquês...



“A rosa não tem porquês. Ela floresce porque floresce”
(Ângelus Silesius)


Assim também a poesia...Não precisa de regra, padrão, rima, metria ou sabedoria ... Em forma de riso, de choro, de gozo, de espera, de asa, de ausência, de pétala, de presença, brota onde, quando, como e em quem escolhe. Da treva, do cristal, do fel, do mel, da chama, das cinzas, nasce e renasce séculos sem fim, amém!

Duas ou Três Rosas...


"Os poderosos podem matar uma, duas ou até três rosas,
mas jamais poderão deter a primavera." (Che Guevara)

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Dois zóim a passear...

Cedo, cedo...o sol, preguiçoso, esfrega o olho...não sabe se levanta ou fica mais um pouco. Janelas dormem. Papagaio quer café. Ruas desertas, pistas vazias...podia dançar no meio do asfalto se dançar quisesse. Dálmata fugido...digo que é lindo, me ignora...espera que abram o portão. Árvore degolada renasce... fotografo! Cheiro de banho, de café, de pão quente. A beata e seu rosário madrugam pra falar com Deus. Primeiros carros, primeiros passos...passos lentos, apressados, em marcha, correndo... passo por muitos, muitos passam por mim. Jardim abandonado...periquito e bem-te-vi. Os dois velhinhos de todo dia...Bom dia!!! Quanta simpatia! A cadelinha poodle de lacinho cor-de-rosa...tão educadinha! Sem coleira, passo a passo com a dona. Cachorrão preto, ofegante, de focinheira quase arrasta o homem que o leva (ou é levado por ele?). Pra variar lembro Rubem Alves: “Muitas pessoas levam seus cães a passear. Eu levo meus olhos a passear. E como eles gostam! Eles têm fome de ver. Encantam-se com tudo. Para eles o mundo é assombroso. Tenho dó daqueles que caminham para fazer exercício, cabeça baixa, olhando para o chão, com cara de sofrimento, sem ver as árvores e os pássaros”. Eu bem que gostaria de levar meu cão a passear, mas por enquanto, só por enquanto não posso ter cão...Então assim como o poeta, levo meus olhos, ouvidos, narinas e alma a caminhar.Plantinha branca, que linda...outra foto! E aquela frutinha...já não dá pra dançar na pista... atravesso correndo. A frutinha vira foto. Cervejaria não dorme. Chamam o próximo caminhão para descarga. Caminhoneiro gaúcho, cuia de chimarrão. Mais um eucalipto cortado...se continua assim, que será dos pulmões daqui a pouco? Outros eucaliptos cheiram mais forte que nunca! choram a morte do irmão. Ali plantaram uma semente de “Campus”. Vamos ver se o governador com nome de planta tem palavra de raiz!quanto tempo vai levar pra nascer o pé de Universidade plantado nesta placa? Cobrinha morta, tadinha! Tão linda! banquete de formiga...é a vida...fim de um, alegria do outro.Relógio avisa: noventa minutos, mais noventa de volta! Gaiola de concreto te espera! Dói o pé... depois de “torcido”sempre dói, mas não é uma dorzinha besta que vai me segurar. A alma quer mais, e vai à frente me puxando, serelepe feito pipa a debicar. Quem vence é o relógio. “Vambora zóinho” (???) ! Amanhã tem mais.

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Tudo direitinho


Depois de ler isto, senti-me mais leve...é que sempre achei um crime deixar um livro pela metade...agora vejo que estive “Pennacmente” correta, quando abandonei bem no comecinho, “Saltei Abismos”, de Dulce Tupacyguara, quase pela metade “O Processo” de Franz Kafka, quase no fim, As Cidades Invisíveis de Ítalo Calvino; quando NÃO li “O Príncipe” de Maquiavel, quando me encantei com o “Pequeno Príncipe”, quando achei muito foguete pra pouca festa “O Código Da Vinci” , quando reli e treli “Fernão Capelo Gaivota” quando tomei de um gole só “Pássaros Feridos”, quando tomo de novo aos golinhos todo dia, “Um céu numa flor silvestre”. É tudo direito, olhaí:

Direitos Imprescritíveis do Leitor
(Daniel Pennac)

1.O direito de não ler.
2.O direito de pular páginas.
3.O direito de não terminar um livro.
4.O direito de reler.
5.O direito de ler qualquer coisa.
6.O direito ao bovarismo (doença textualmente transmissível).
7.O direito de ler em qualquer lugar.
8.O direito de ler uma frase aqui e outra ali.
9.O direito de ler em voz alta.
10.O direito de calar.

domingo, janeiro 07, 2007

Asas e almas


Reflexão
(Gilka Machado)

Há certas almas
Como as borboletas,
Cuja fragilidade de asas
Não resiste ao mais leve contato,
Que deixam ficar pedaços
Pelos dedos que as tocam.

Em seu vôo de ideal,
Deslumbram olhos,
Atraem as vistas;
Perseguem-nas,
alcançam-nas,
detêm-nas,
mas, quase sempre,
por saciedade
ou piedade,
libertam-nas outra vez.

Elas, porém, não voam como dantes,
Ficam vazias de si mesmas,
Cheias de desalento...

Almas e borboletas,
Não fosse a tentação das cousas rasas;
- o amor de néctar,
- o néctar do amor,
E pararíamos nos cimos
Seduzindo do alto,
Admirando de longe!...

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Entre o luar e a folhagem


Entre o luar e a folhagem
(Fernando pessoa)

Entre o luar e a folhagem,
Entre o sossego e o arvoredo,
Entre o ser noite e haver aragem
Passa um segredo.
Segue-o minha alma na passagem.
Tênue lembrança ou saudade,
Princípio ou fim do que não foi,
Não tem lugar, não tem verdade.
Atrai e dói.

Mata e cura


O que mata, também pode curar; o que eleva também pode derrubar.

Muito interessante este texto de Dad Squarisi publicado no Correio Braziliense em 31/12/2006:

Receita do melhor e do Pior

Dad Squarisi

"Ele gostava de escrever histórias. Preferia as fábulas. É dele a popular "A raposa e as uvas". Grego, foi escravizado em Roma. Na terra dos Césares, comandava a cozinha de um senhor rico, dono de enorme prestígio. Um dia, o poderoso lhe ordenou:
- Vou receber a elite política, econômica e intelectual do país. Faça um jantar com o que há de melhor. Escolha especiarias, carnes, frutas e verduras sem preocupação com gastos. O importante é a excelência.
Os convidados chegaram. Depois dos aperitivos, sentaram-se á mesa. O cardápio surpreendeu. Entrada principal: língua. Prato principal: língua. Sobremesa: língua.
Indignado, o mandachuva cobrou explicação do subalterno. Esopo explicou:
_ O Senhor pediu o melhor. O que pode superar a língua? Com ela fazemos discursos, aprendemos filosofia, conquistamos parceiros, ganhamos promoções, cantamos louvores, conversamos com Deus.
- Pois agora providencie outro banquete, mas com o que há de pior.
Esopo repetiu o cardápio e a explicação:
- Com a língua , é possível caluniar, insultar, mentir, prejudicar a si e ao outro.
A língua constrói e destrói mundos."

terça-feira, janeiro 02, 2007

Tudo Novo!!!


Anda, abre os olhos!
Viraram o calendário! Agora é tudo novo de novo! Se vires caras de fome, lágrimas de abandono, de desespero, de desamor, esfrega bem os olhos e vira a cara, pois será alucinação, memória de coisas passadas, porque agora é tudo belo, tudo claro!
O mundo vestiu branco, o novo tempo foi brindado espumante, explosiva e coloridamente! Agora reina a PAZ entre os povos!
Então, tá esperando o quê? Anda! pega tua alma magoada, tua aura amargurada, enrola tudo no pijama esconde debaixo da cama pra mais tarde, quando fores tu mesmo só com teu travesseiro! Mas, agora calça as botas da esperança, veste a fantasia, pinta o nariz de vermelho, põe a máscara da alegria que é feio ser triste, é pecado ser triste, é crime ser triste! Então pega emprestado um sorriso, aquela outra máscara de beiço cortado e dentes de fora, promete emagrecer ou engordar, arranjar um novo emprego ou um novo amor, promete muito, mas não vale cumprir! Abraça todo mundo, confraterniza-te criatura! Grita ao mundo que és feliz!

sábado, dezembro 23, 2006

Em folha!


Fim de ano... por mais avessos que sejamos às convenções e comemorações não dá pra escapar do clima de renovação, cada um do seu jeito. Pra mim é tempo de limpar gavetas em todos os sentidos, jogar fora coisas inúteis, arejar a casa e a alma. E fazendo isso, lembrei-me do melhor dos meus Natais, com minha família em uma fazenda , em plena harmonia com a natureza, com direito a banho de cachoeira com o sol por toalha.
Fim e começo são apenas conceitos, não é a virada do calendário que nos vai trazer grandes mudanças; mas essa fatia de tempo que agora se encerra trouxe decisões, aprendizado e crescimento.
Que venha 2007, que traga a beleza do sete! Há quem tenha certo receio do número sete; acho-o significativo, rico. São sete as cores do arco-íris, sete as notas musicais, sete os dias da semana, sete os véus da bela dança, os segredos do tesouro, as vidas do gato, os sentidos da mulher. Tá bom! Tem também as sete pragas do Egito, sete palmos debaixo do chão, mas isso a gente deixa a setenta vezes sete milhas de distância do pensamento!
Que venha 2007 com muita paz! Vou esperá-lo “sem rádio e sem notícia das terras civilizadas”, por isso é esta minha última postagem de 2006.
A todos que passarem por aqui, desejo PAZ!!!
Que venha 2007 , novinho em folha, flor e fruto e nos faça renascidos!

Sibipiruna



Sibipiruna

Palavrinha difícil de falar, parece um quebra-língua! Se a palavra enche a boca, o que ela designa enche os olhos e encharca a alma de tanta beleza! A cidade está amarelinha de novo! Parece que as árvores fizeram um pacto de deixar sempre dourado o céu de Brasília...Quando saem de cena os ipês e as caraibeiras, vêm as sibipirunas. “Contemplativos” agradecemos!

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Esclarecendo

Recebi uma cobrança/sugestão: por que não faço referência às imagens postadas? Fiz quando usei foto de uma amiga, quando fiz foto de foto, como no caso de uma reportagem do Correio Braziliense; as demais, são todas minhas; as telas que fotografo também são minhas, por isso não vejo necessidade de mencionar. Se você gosta de fotografia não profissional e quiser visitar minha "galeria" no http://www.emquadro.com.br (vilma) será bem-vindo! Tenho algumas também no http://www.photografos.com.br/ (josefa vilma) mas abandonei; o tempo não dá pra tanta coisa. Ficamos entendidos agora? Obrigada pelo toque!

quarta-feira, dezembro 20, 2006

E Então Seria Natal!


Quisera Natal fosse algo mais que shopping, vinho e peru!...O que é Natal? Aniversário de quem mesmo?



Organiza o Natal
(Carlos Drummond de Andrade)

Alguém observou que cada vez mais o ano se compõe de 10 meses; imperfeitamente embora, o resto é Natal. É possível que, com o tempo, essa divisão se inverta: 10 meses de Natal e 2 meses de ano vulgarmente dito. E não parece absurdo imaginar que, pelo desenvolvimento da linha, e pela melhoria do homem, o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas. Será bom.
Então nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente, de cortina de ferro à cortina de nylon - sem cortinas. Governo e oposição, neutros, super e subdesenvolvidos, marcianos, bichos, plantas entrarão em regime de fraternidade. Os objetos se impregnarão de espírito natalino, e veremos o desenho animado, reino da crueldade, transposto para o reino do amor: a máquina de lavar roupa abraçada ao flamboyant, núpcias da flauta e do ovo, a betoneira com o sagüi ou com o vestido de baile. E o supra-realismo, justificado espiritualmente, será uma chave para o mundo.
Completado o ciclo histórico, os bens serão repartidos por si mesmos entre nossos irmãos, isto é, com todos os viventes e elementos da terra, água, ar e alma. Não haverá mais cartas de cobrança, de descompostura nem de suicídio. O correio só transportará correspondência gentil, de preferência postais de Chagall, em que noivos e burrinhos circulam na atmosfera, pastando flores; toda pintura, inclusive o borrão, estará a serviço do entendimento afetuoso. A crítica de arte se dissolverá jovialmente, a menos que prefira tomar a forma de um sininho cristalino, a badalar sem erudição nem pretensão, celebrando o Advento.
A poesia escrita se identificará com o perfume das moitas antes do amanhecer, despojando-se do uso do som. Para que livros? perguntará um anjo e, sorrindo, mostrará a terra impressa com as tintas do sol e das galáxias, aberta à maneira de um livro.
A música permanecerá a mesma, tal qual Palestrina e Mozart a deixaram; equívocos e divertimentos musicais serão arquivados, sem humilhação para ninguém.
Com economia para os povos desaparecerão suavemente classes armadas e semi-armadas, repartições arrecadadoras, polícia e fiscais de toda espécie. Uma palavra será descoberta no dicionário: paz.
O trabalho deixará de ser imposição para constituir o sentido natural da vida, sob a jurisdição desses incansáveis trabalhadores, que são os lírios do campo. Salário de cada um: a alegria que tiver merecido. Nem juntas de conciliação nem tribunais de justiça, pois tudo estará conciliado na ordem do amor.
Todo mundo se rirá do dinheiro e das arcas que o guardavam, e que passarão a depósito de doces, para visitas. Haverá dois jardins para cada habitante, um exterior, outro interior, comunicando-se por um atalho invisível.
A morte não será procurada nem esquivada, e o homem compreenderá a existência da noite, como já compreendera a da manhã.
O mundo será administrado exclusivamente pelas crianças, e elas farão o que bem entenderem das restantes instituições caducas, a Universidade inclusive.
E será Natal para sempre.

De tudo fica um pouco


Porque fica um pouco da rosa despetalada, do vinho "destinto" e derramado, da tela rasgada, da porta fechada, gosto destes trechos do poema

"Resíduo"
de Carlos Drummond de Andrade

...De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa ficou um pouco.
Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.”

...Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficariaum pouco de mim?
E de tudo fica um pouco.
...Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.
Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo...

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Para refletir


Fascinam-me palavras que fazem pensar,
Fascina-me quem diz tudo falando pouco.
"O melhor profeta do futuro é o passado".(Robert Frost)

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Onde mora a poesia?


No reino das palavras, disse o Poeta...e o reino das palavras tem súditos em toda alma que se permita ver além do óbvio.
Procura da Poesia
(Drummond)

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha
de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues.
Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Poema musicado


Suave como as "mãos da chuva", poema de E.E. Cumminigs, traduzido por Augusto de Campos e musicado por Zeca Baleiro.

nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto

teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa

ou se quiseres me ver fechado, eu e
minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade; cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira

(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Colore pro cuore


Colore pro cuore
(Num dia de amarílis quebrando o cinzento)

Pros dias cinzentos
tinta de "sangre"
Pros dias sangrentos
flores de paz
pros dias de paz,
asas azuis
Pro "Vôo da Gaivota"
tempo, tempo, tempo...
Pras asas do vento
Céus de anil
Pra boca da noite
Beijos de anis

Borboletras

terça-feira, dezembro 05, 2006

Bolhas de Sonho



Um livro seduziu-me pela capa...não a capa em si, mas o que dela emana, assim como nunca é um rosto que me atrai, mas o que ele tem de expressivo: o olhar independente da cor dos olhos, o sorriso independente da forma da boca... Mas o olhar do livro, a janela da alma que ele me mostrou, assim como quem não quer nada, foi isto:

“Ver um Mundo num Grão de Areia
E um céu numa Flor silvestre,
Ter o infinito na palma da sua mão
E a Eternidade numa hora.”
(William Blake)

Esta jóia estava nas mãos de uma colega de trabalho...pedi licença e fui logo pegando; o título do livro é Um céu numa flor silvestre (A beleza em todas as coisas) de Rubem Alves, de quem me tornei admiradora depois de “apresentada” por uma amiga à casa virtual dele...( http://www.rubemalves.com.br/) . A visita como não poderia deixar de ser começou pelo jardim...daí fui enveredando por todos os cantos e sempre que volto tenho belos momentos de fascínio. Mas tô aqui pra falar do livro...foi paixão á primeira vista; a colega que já estava levando emprestado de outra, prometeu emprestar-me, mas eu não ia esperar; saí procurando e comprei. Foi a coisa mais bonita que veio parar em minhas mãos neste ano; Li em duas tardes. É impressionante como em 163 páginas coube a beleza de Bach, Beethoven, Mozart, Chico Buarque, Nelson Freire, Turner, Constable, Van Gogh, Picasso, Monet , Michelangelo, Bachelard, Fernando Pessoa, Guimarães Rosa e outros iluminadores de almas mais a beleza das letras, de colchas de retalho, de bordados, da delícia que é cozinhar com e para quem se gosta, a beleza dos sons do silêncio ou das asas das borboletas, (isso mesmo, sons de asas de borboleta); a beleza das bolhas de sabão e de caminhar sozinho junto ao verde ou junto ao mar. É beleza que não acaba mais e para falar tudo que ele inspira seria preciso escrever também um livro. Encontrei inspiração para infinitos “post”, pois em muitas das crônicas senti minha alma lida, escrita e descrita. Se pudesse dar uma forma que não livro a esse pote de beleza diria que é um buquê de bolhas de sabão recheado de margaridas, puxado por uma “revoada” de borboletas azuis num bosque de cerejeiras floridas; é um livro com voz de passarinho, cheiro de lavanda e gosto de amora madura, de vinho tinto, de chocolate com menta; é macio feito pêlo de gato.
Pra completar, o autor tem uma amiga Vilma que foi professora, faz poesias, ama o mar e cata conchinhas. Eu sou Vilma (apesar de Josefa), amo o mar, adoro conchinhas e a poesia é minha professora...
Quem sabe um dia, terei neste livro encantado o autógrafo desse fazedor de belezas como esta:

“...A beleza que os deuses oferecem aos homens como dádiva, cai dos céus à semelhança do maná. A beleza que os homens oferecem aos deuses como dádiva, sobe da terra aos céus como fumaça ou bolhas de sabão.”

Esquadros


Uma bela música de cores fortes, de que gosto muito e há um bom tempo não ouvia.

Esquadros
Adriana Calcanhotto

Eu ando pelo mundo prestando atenção
Em cores que eu não sei o nome
Cores de Almodóvar
Cores de Frida Kahlo, cores
Passeio pelo escuro
Eu presto muita atenção no que meu irmão ouve
E como uma segunda pele, um calo, uma casca
Uma cápsula protetora
Eu quero chegar antes
Pra sinalizar o estar de cada coisa
Filtrar seus graus
Eu ando pelo mundo divertindo gente
Chorando ao telefone
E vendo doer a fome dos meninos que têm fome
Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela(Quem é ela? Quem é ela?)
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle
Eu ando pelo mundo
E os automóveis correm para quê?
As crianças correm para onde
Transito entre dois lados, de um lado
Eu gosto de opostos
Expondo meu modo, me mostro
Eu canto para quem?Eu ando pelo mundo e meus amigos, cadê?
Minha alegria meu cansaço?
Meu amor, cadê você?
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Pisando leve


Caminhando com asas de borboleta, de cara pras nuvens...
Assim começou meu dia.
Ainda vou descobrir o que queriam me dizer três desses apaixonantes seres alados que em três diferentes trechos da minha caminhada, deram-me o prazer de sua "companhia"!
Que tenhamos todos um dia leve feito asas, pétalas e nuvens!

quarta-feira, novembro 29, 2006

Semelhanças


Qualquer semelhança da tela com uma foto National Geographic não é mera coincidência.

Muda tudo, mudo eu ...quanto mais mudo, mais muda fico...só não muda o jeito estranho como me chegam palavras de não sei onde, no meio da noite, e se não me levanto e encontro um papel onde despejá-las ficam lá martelando sem me deixar dormir...
Estas aí foram paridas ontem, assim do nada;

Semelhanças

Depois de VOCÊ
Não há riso nem lágrimas
Cinzas nem lavas
Desejo nem medo
Fogo nem gelo

Depois de VOCÊ
Não há carícia nem carência
Ausência nem presença
Sonho nem pesadelo
Não é tarde nem é cedo

Depois de VOCÊ
Não há esperança nem desespero
Caminhos nem desvios
Planos nem abismos
Não há caos nem há vazio

Depois de VOCÊ
Não há canto nem lamento
Encanto nem tormento ...
Há um NADA
Pleno de TUDO.

Qualquer semelhança com VOCÊ, é mera coincidência... VOCÊ não existe...é persona imaginária, comum...é qualquer um que seria se não fosse, que brinca de amar sem amor, que mina plantios de sonhos, ou que planta sonhos minados...é duas caras, uma metade, duas vidas meias verdades...uma máscara, uma mentira.

terça-feira, novembro 28, 2006

Temporada de Casca


Tudo bem! Sei que todo mundo já falou desse assunto, mas também quero falar...afinal, para escrever e fotografar, cada um o tem sua marca...o mesmo assunto visto ou comentado por mil pessoas renderá mil resultados diferentes nenão?
Fala-se muito da doença da moda, ANOREXIA que matou duas garotas há poucos dias...mas não é só esta... há algum tempo garotos morreram e ficaram doentes depois de injetar em seus corpos “remedinho” pra cavalo (ou pra boi?) buscando músculos; vez em quando morre uma mulher ao fazer em qualquer “açougue”’ inofensivas lipos ou implante de silicone nas “protuberâncias de cima e de baixo”, enquanto outras ficam carecas fazendo “baratinho” escovinhas definitivas, expondo-se a produtos químicos desconhecidos só porque alguém disse que cabelo lisinho é bonitinho; perdem a expressão enchendo o rosto de toxinas em nome da eterna juventude e acabam com cara de boneca inflável...Não sou nenhuma Irmã Paula, não me considero imune a qualquer vaidade, mas acho que somos máquinas muito perfeitas pra viver APENAS em função dessa casquinha, que escultural, magrinha, cheiinha, obesa ou esquelética vai virar “pozinho podrinho” do mesmo jeito...Claro que devemos valorizar o corpo, sim, pois é ele a embalagem , a morada da essência, nosso cartão de visitas; exercício é saudável, alimentação equilibrada também...mas isso está bem longe de se matar de fome ou de tanto “malhar” na busca insaciável de um “corpo perfeito”, ou de uma beleza que nada mais é que conceito criado pela cruel ditadura da moda...depois, o que é corpo perfeito? Um dia as belas são as branquinhas rechonchudas, outro dia as de gordura zero, outro dia as morenas cheias de curvas; hoje cabelo bonito é loiro cacheado, amanhã é vermelho liso e por aí vai...
Que tal, malhar um pouquinho os neurônios, ver a casca como proteção de
Sua Excelência O MIOLO, e dar a ele um tantinho mais de atenção? Porque na atual temporada, miolo engorda ou incomoda...o que interessa é a casca e quanto mais oca melhor! Fica mais fácil de engatar as “fashion” correntinhas escravizadoras da cor da moda.
Quem sabe, um dia as meninas comecem a enxergar que há vida além da carreira de modelo?

Porque somos águias...


"...abramos as asas e voemos. Voemos como as águias. Jamais nos contentemos com os grãos que nos jogarem aos pés para ciscar." ( Do livro "A águia e a galinha" de Leonardo Boff )

Nada mais deprimente que ver uma águia negar sua condição, ciscando e cacarejando.

terça-feira, novembro 14, 2006

Coisas e Outras Coisas


Noite dessas voltando pra casa, num engarrafamento de tirar do sério a mais zen das criaturas, lembrei-me das palavras de um doce menininho, que do alto da sabedoria e pureza de seus sete anos deixou-me segurando o queixo com esta declaração:

“Eu não gosto muito das coisas que o homem cria... carro, moto, coisas assim...gosto mais das coisas que Deus criou...planta, bicho...”

Sem a inocência dele, sei que as “coisas que o homem cria” são necessárias, mas viveria bem mais feliz num lugar que Deus criou, onde pudesse resolver tudo com as canelinhas que Deus me deu, sem depender de carro, sem buzina, sem engarrafamento...e se nesse lugar o SER fosse mais valorizado que o TER e o COMPRAR, pronto! Faltava mais nada! Mas, falando de coisas, achei muito interessante o trecho de texto que transcrevo abaixo. Não chego ao ponto de gostar mais de coisas que de pessoas...Gosto de pessoas-pessoas que vão ficando cada vez mais raras...o que tem-se “multiplicado em excesso”, são as pessoas-coisas, que se deixam tratar como coisas, ou que insistem em “coisificar” pessoas...entre estas e as coisas, fico com as coisas...

“Eu sonho com uma língua composta unicamente de adjetivos como decerto é a linguagem das plantas e dos animais.

Com isso, eu também sonho...com certeza, a linguagem dos animais é desprovida de máscaras e armadilhas... Cachorro quando quer distância, rosna, eriça o pêlo, mostra os dentes; quando vai com a cara da gente, abana o rabo, se aproxima, e dependendo de nossa reação teremos um amigo pra toda vida...e assim são os bichos...sabemos o que esperar deles, enquanto gente é capaz de acariciar com uma mão e apunhalar com a outra ou de envenenar sorrindo e dizendo “Te amo”...


De Gramática e de linguagem
(Mário Quintana)

“E havia uma gramática que dizia assim: “Substantivo (concreto) é tudo quando indica pessoa, animal ou cousa: João, sabiá, caneta.” Eu gosto das cousas. As cousas sim! ...As pessoas atrapalham. Estão em toda parte. Multiplicam-se em excesso. As cousas são quietas. Bastam-se. Não se metem com ninguém. Uma pedra. Um armário.Um ovo, nem sempre, ovo pode estar choco; é inquietante...As cousas vivem metidas com as suas cousas. E não exigem nada. Apenas que não as tirem do lugar onde estão. E João pode neste mesmo instante vir bater à nossa porta. Para quê? Não importa: João vem! E há de estar triste ou alegre, reticente ou falastrão, amigo ou adverso...João será definitivo quando esticar a canela. Morre, João...mas o bom senso mesmo, são os adjetivos, os puros adjetivos isentos de qualquer objeto. Verde. Macio. Áspero. Rente. Escuro. Luminoso. Sonoro. Lento. Eu sonho com uma língua composta unicamente de adjetivos como decerto é a linguagem das plantas e dos animais... “

segunda-feira, novembro 13, 2006

Desvalores


De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto. ( Rui Barbosa)

quarta-feira, novembro 08, 2006

De livros e palavras


Disse Padre Antônio Vieira:
Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive.
Disse Mário Quintana:

“Os livros não mudam o mundo. Quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas.

Digo eu:
Se livros são feitos de palavras que traduzem idéias, logo o que muda as pessoas é a palavra, pelo menos a imagem que pessoas fazemos umas das outras...
A palavra que constrói também destrói...depende da "direção do vento" nenão?

O Sol


Tô mentalmente preguiçosa...só pescando palavrinhas pensantes interessantes ou apenas sonoras...Aí vão umas bem saborosas do Arnaldo Antunes:

O Sol
Arnaldo Antunes

Nessa época o sol é mais frio
Porque ele se divide em mil
Mas para lá de janeiro
Ele volta a ficar inteiro
Agora o sol parece uma laranja madura
Porque ele está sem pintura
Mas quando entra março
Parece a cara de um palhaço
Tem dias que o sol vai embora
Tem noites que não tem aurora
Às vezes ele fica no Japão
E só volta quando chega o verão
Agora que o sol está bravo
Parece uma moeda de um centavo
Mas quando se alegra, o sol
Fica maior que uma bola de futebol
O sol está brilhando muito claro
Porque hoje é seu aniversário
Nesses dias ele quase cega
E quem é cego quase enxerga
O sol está sempre ali no céu
A terra é que faz o carrossel
De noite o sol apaga sua chama
E dorme debaixo da minha cama

terça-feira, novembro 07, 2006

Levezas


Poesia leve, suave feito nuvem de algodão.

Caixinha de Música
(Matilde Rosa Araújo)
Grilo, grilarim
Tens um canto azul
Na noite de cetim!
Cigarra, cigarraia
Tens um canto branco
No dia de cambraia
Formiga, miga, miga
Só tu cantas os nadas
Do silêncio do Sol
Das estrelas caladas.

quarta-feira, novembro 01, 2006

Tempo, Tempo, Tempo...


“Tempo, tempo, tempo...Senhor tão bonito quanto a cara do meu filho...," Tempo que passa mudando o que eu sinto, me poniendo vieja,!” ... Tempo que não pára, tempo que nunca temos para o que devemos e estamos sempre devendo para o que queremos.

Como é cantado o tempo! Tanto quanto ou mais que a lua?
Mais que conceito de presente, passado e futuro, mais que dimensão da Física, mais que categoria verbal, mais que inspiração artística, o tempo é um de todos os Santos , acho eu e acho ainda o mais poderoso de todos, porque os outros têm especialidades: tem santo protetor dos olhos, da voz, dos motoristas, dos endividados, dos encalhados, das causas perdidas.... São Tempo resolve tudo! Concorda não? Pense um tiquinho: Um dia a gente acorda, procura aquela ferida da pele ou da alma, feita por um bisturi ou por uma mentira...a marca ta lá feito um quelóide, mas não dói mais; A gente se espanta, duvida, quer certeza! Aperta, belisca, cutuca, remexe, revira o baú da memória, busca imagens, cheiros e sons...Nada acontece, nada brilha, nada pulsa, arde ou se dilata! Nada de ira, medo, dor ou saudade...feridas curadinhas da silva! Obra de quem? De São Tempo...Ele que abre semente, aprofunda raiz, desabrocha e despetala, faz nascer, morrer e renascer, determina o plantio e a colheita, o acender e o apagar, o ascender e o cair, o decair, recair, o levantar; o alçar e o alcançar, o rir e o chorar, o se perder e se encontrar.
Será que é em homenagem a São Tempo que igrejas quase sempre têm belos relógios? Aproveitando que hoje é dia de Todos os Santos, eu, devota de nenhum, faço minha prece: Tempo, senhor da vida, ensina-me a reconhecer teu poder e agradecer tua generosidade!