quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Retrato em branco e preto


Meu caderninho de bordo anda meio esquecido...tanto quanto as telas e tintas.As lentes, o “sudoku”e os livros, não! Tenho diversificado meus prazeres e afazeres. Agora ando de amores com a terra, encantada com partos de sementes e crescer de mudas. Lembram aquele meu “Projeto pra daqui a pouco”? Pois é...chegou! Mas entre um brotar e outro, o prazer de belas páginas entrando pelos olhos, acordam lembranças e instigam os dedos.
A fala de uma personagem do delicioso livro “Retrato em Sépia” de Isabell Allende levou-me a refletir sobre uma bela herança: Paixão pela fotografia.
Um dia olhando fotos de família, vejo uma que destoa da época e é a minha preferida. Sempre que fomos fotografados, quando pequenos, estávamos impecáveis, de roupa domingueira, cabelinhos caprichados. Nessa de que falo, me vejo uma molequinha magrela, quase nua, num quintal, pega de surpresa. Quis saber quem tinha feito...minha mãe diz que foi meu pai, que tinha uma Kodak. Ah! Seu João, então herdei mais essa de você hein? Naquela época, um homem pobre, que vivia correndo mundo pra ganhar o pão, dar-se o luxo de ter uma máquina fotográfica, só podia ser por muita paixão mesmo.

Eis o belo texto, que parece um retrato de minha alma e que levou-me ao baú de lembranças:



"...Ao ser observado com verdadeira atenção, um objeto ou corpo de aparência comum transforma-se em algo sagrado. A câmara pode revelar os segredos que o olho desarmado ou a mente não captam; tudo desaparece, salvo aquilo que é enfocado no quadro. A fotografia é um exercício de observação, e o resultado é sempre um golpe de sorte;..."
"...A câmara é um aparelho simples; mesmo o indivíduo mais inepto pode usá-la; o desafio consiste em criar com sua ajuda aquela combinação de verdade e beleza que se chama arte. Essa busca é sobretudo espiritual. Procuro verdade e beleza na transparência de uma folha no outono, na forma perfeita de um caracol na areia da praia, nas curvas de um torso feminino, na textura de um velho tronco, mas também naquelas formas escorregadias da realidade. Algumas vezes, ao trabalhar com uma imagem em meu quarto escuro, aparece a alma de uma pessoa, a emoção de um evento ou a essência vital de um objeto, e nesse momento a gratidão explode em meu peito, e não posso evitar que meu pranto se solte. É para essa revelação que meu ofício aponta...."

sexta-feira, dezembro 07, 2007

Com quantos tijolos?


Quando criança, tinha em casa um calendário, que minha mãe chamava marca-mês. Era uma placa de plástico imitando azulejo, com o desenho de uma linda casinha azul e a inscrição: “Casa é feita de pedra, lar é feito de amor”...nesse tempo minha casa era de madeira, mas o lar era mesmo de amor. Foi amor que uniu a filha de um comerciante bem “remediado”, lá na Paraíba, a um cabra corajoso que quando a pediu em casamento, disse que tinha por casa o chapéu e de riqueza, os braços para trabalhar... ela aceitou e viveram em união, na saúde e na doença, na tristeza e na alegria, nas lutas e vitórias, no mais verdadeiro sentido de lar até que a morte os separou.
Vejo lares tão quebradiços, que fingem se consertar com o piso de mármore na casa reformada, com o carro novo, com uma jóia, com a viagem dos sonhos... Então me pergunto: com quantos tijolos, com quantos "cavalos", com quantos quilates ou com quantas milhas se constrói um lar?
Ainda prefiro acreditar no “marca-mês”: “Lar é feito de Amor”

quinta-feira, dezembro 06, 2007

Entretantas...


Entretantas


Entre nuvens uma lua
Entre curvas uma rua
Entre tantas almas nuas
Uma alheia,
Uma minha,
Outra sua...
Uma sua, pinga sal
Outra lacrimeja fel
Uma ri como outra ria
Como ria
Outra geme
Da mesma dor que sentia
Do mesmo sentir que doía
Entre pedras, uma gema
Entre as pernas um poema
Entre flores a espinha
Atravessando a garganta
Uma dança...
A outra canta...
Entre claras,
Nuvem negra
Entre mudas, uma cega
Uma chega, a outra vai
Uma perde, a outra leva
Uma aurora, a outra hiberna
Uma antena, a outra terra
Uma asa, a outra perna
Entre perdas e feridas
A amarga descoberta
O roubado é só veneno
O amado é sulfurino
Lentamente corroendo
O que entre sonhos via
O que amor parecia
O que parecia poesia
Entre tantas, uma outra...

quinta-feira, novembro 15, 2007

Das coisas que nunca foram



Há poucos dias, recebi uma bela mensagem, acompanhada deste instigante pensamento:

"Você vê as coisas como elas são e pergunta: por quê?
Mas eu sonho com coisas que nunca foram e pergunto: por que não?"
(Bernard Shaw)


Pensamentos são para pensar e eu pensei:

Houve tempo em que as coisas que nunca foram me fascinaram, me empurraram (ou me puxaram).
Arroubos, impulsos, querer diferente, paixões inconseqüentes, sonhos de amor eterno, onde “não importavam opiniões alheias”, tudo isso vivi e tudo é passado. Já não me cai bem, como não me cai bem usar saiinha colegial e cabelo “maria-chiquinha”. Olhando para trás vejo o querer sonhar com as coisas que nunca foram como impetuosas quedas d’água que em algum ponto serão águas calmas.
Hoje prefiro a serenidade dos lagos que refletem o real das coisas que são, pois estas, com boa margem de acerto, mostram as coisas como serão.
As coisas que nunca foram, são o amanhã que logo, logo será hoje, que por sua vez será ontem.

Mnemo


Mnemo

Branca espuma de algodão
Doce nuvem , coração
De abóbora,
De vidro ou de leão
Flor do mato, flor do “Rio”
“baronesa”, malmequer
“desfolhada”, chão de ipê
Pétala seca, página virada
Retrato marrom, carta amarelada
Primeiro beijo, última noite
Outra mentira, dor de açoite
Quarto minguante, olho crescente
Lua cheia, veia latente
Candeia vazia, alma vadia
Margarida e marguerita
Nove luas, “liberté”
Cuba libre e “igualité”
Quatro queijos, quatro cantos,
um trinado, um gorjeio,
três desejos, muitos contos
Mil e uma noites nuas
Olhos dágua, furta-cores
Sete curvas, sete dores,
Sete quedas,
sete véus e chapeuzinhos
três porquinhos
três marias,
três valias.
bambalalão, Senhor Capitão
Bolinhas de sol, bolhão de sabão
Cheiro de mar, de onda quebrada
Cheiro de mel, balinha esperada
Gosto de sal, gosto de fel
Feliz idade da pedra encantada
Encanto de estrada, viagem, miragem
Olhar de saudade, fechando o portão
Do tempo que o vento leva
Do tempo que o vento traz.
Tudo é memória, tudo é história.

A História é um romance que foi. O romance é a história que poderia ter sido.”
(Edmond e Jules Goncourt)

domingo, outubro 28, 2007

Com outros olhos


Acho que tudo que se vive bem vivido dá lugar a reflexões. As pessoas, as coisas, as cidades não são. Estão. E podem estar belas, horrendas, alegres, tristes, coloridas ou cinzentas dependendo do nosso espírito. Sempre gostei de viajar. Mas houve época em que fui obrigada a fazer isso, a trabalho e com muita responsabilidade. Três a quatro vezes por ano, tinha de ir à cidade de São Paulo, fazer compras para a loja onde trabalhava. São Paulo era cinzenta, fria, significava insônia, gastrite, medo de assalto. Quando alguém me perguntava se gostava de São Paulo, respondia: Detesto.
Há poucos dias, de férias, passando uma tarde em São Paulo, vi uma cidade alegre, abrigo de todas as tribos, línguas e cores. Cidade onde mulheres sozinhas podem tomar cerveja tranquilamente em um barzinho de calçada, sem serem olhadas como bichos raros ou como vadias; cidade onde o trânsito infernal convive com belos espaços arborizados, onde pessoas passeiam com seus cachorros, onde se come pipoca e se vai a feira de livros, onde intensa vida cultural nos convida a voltar. Mas dessa vez São Paulo era apenas um ponto de partida para a beleza fria e acolhedora da Serra Gaúcha, continuando pela majestade das Cataratas do Iguaçu. Aqui também, cabe dizer que meu olhar era meio fechado e que muitas vezes deixei de lado a idéia de conhecer o sul, pela opinião pré-concebida e baseada em comentários de que o sulista é mal educado e não recebe bem visitantes. Não foi o que vi. Pelo menos nas cidades por onde passei , - Curitiba, Gramado, Canela, Nova Petrópolis, Bento Gonçalves, Caxias do Sul, Garibaldi, Antônio Prado e Foz do Iguaçu – minha cara nordestina assustou ninguém. Seja em Curitiba, que tem servido de modelo para outras cidade do país e do mundo, seja na zona rural,vi um povo muito educado, organizado e desenvolvido. Foi a minha melhor viagem. Voltei de alma limpinha, lavada com vinho e neblina e tatuada de belezas que parecem ter saído de algum conto de fadas.
A minha famosa meia dúzia, convido visitar o novo álbum de fotos: Coisas do Sul, onde coloquei uma amostrinha do que vi e registrei.

Ainda não me achei no tal do Flickr para onde foram migrados os álbuns do Yahoo; estou aprendendo a me organizar, mas vá lá. O endereço é: http://www.flickr.com/photos/asazul/

terça-feira, outubro 09, 2007

Camadas de tinta




Ganhei uma cabaça...certamente “saberia o que fazer com ela”. Foi colhida verde, mas depois de uma cirurgia “estripadora”, muita lavagem e muito sol, a cabaça estava pronta para receber tinta. Agora, a vez da cabeça. E era tanta idéia, que haja cabaça. Sei lá por que, talvez inspirada pela leitura sobre as terras das burcas, imaginei uma cabaça azul- céu com arabescos dourados. Pintei. Não gostei. Foi a coisa mais brega que saiu das minhas mãos; um verdadeiro azul-calcinha com rabiscos dourados. Uma camada de tinta branca deixou a cabaça novinha esperando outro comando da cabeça. O que seria? Algo parecido com arte marajoara? Quem sabe, bege e marrom ou flores em tons “desmaiados”, lembrando retratos antigos? Ou uma “nega maluca” em cores vivas? Ou uns abstratos em vermelho e preto? Ou barras gregas em preto e dourado? Ou?...De tanto “Ou”, saiu foi nada e a cabaça ficou meses esperando quietinha. Agora, sem quê nem pra quê, num repente de pouco mais de uma hora a cabaça virou melancia. Mas, percebi que meu impulso impediu-me de lembrar que a cabaça tinha uma cicatriz e que teria ficado bem legal do lado da casca, não do miolo. “Acho que vou virar a bicha do avesso!” O miolo vira casca e a casca vira miolo...Simples assim! Mais uns dias de dúvida, mais uma camada de tinta branca e eis minha melancia, do jeito que eu queria. E um pensamento: Pena que na vida, não se pode sobrepor camadas de tinta! Não dá para transformar abóbora em carruagem, cabaça oca em fruta suculenta, nem para mudar as cores e os rumos de nossas escolhas. Quase sempre, não há tempo para passar a limpo os rascunhos.

sexta-feira, setembro 21, 2007

O dia em que tive uma borboleta na mão





Já fui tocada, ou melhor, “adejada” por borboletas. Um dia até ganhei de presente um balé inesquecível de uma bela “asazul”. Mas, sempre quis muito, tocar uma delas. Essa semana, vivi essa experiência, esse desejado toque. Não sei de onde, uma bela alaranjada veio parar dentro de casa, bem cedinho. Debatendo-se em busca da saída, partiu uma asa. Lá vou eu, rastejando, me enfiando atrás de móveis tentando ajudá-la. Tentei fazê-la entrar num caneco, não consegui. Tentei com uma folha de papel, fez uma pequena pausa e continuou se batendo. Não queria pegar pelas asas com medo de machucar. Acabei conseguindo chegar bem perto, ofereci a mão e ela aceitou. Fiquei deslumbrada e pensei: Que foto eu vou perder! Mas o importante era salvar a bichinha. Nunca vou entender porque confiou em mim, e ficou quieta na minha mão. Levei-a pro jardim, torcendo para que voasse. Ia ficar sem foto, mas feliz por vê-la livre. Coloquei-a num cacho de hortênsias e ficou parada, abrindo e fechando as asas. Já que não ia embora, fui buscar a câmera para fotografá-la. Ofereci a mão de novo e de novo ela aceitou. Não dava par acreditar que havia uma borboleta pousada em meus dedos.Fiz fotos tremidas de emoção e pela incômoda posição de fotografar com uma mão só. Devolvi-a ao ramo de flores e por mais de meia hora fiquei observando-a. Nunca desejei tanto que partisse algo que sempre quis por perto. Em um minutinho que entrei em casa, sumiu. Desconfiei que a gata a tivesse matado, procurei pelo chão, pelas flores e nada. Algumas horas depois quando saía para trabalhar vi minha fadinha cor de labareda voando como a se despedir. Fiquei feliz, muito feliz! Não me aborrece por muito tempo, que pessoas se afastem de mim ou delas me afastem. Pessoas sabem o que é melhor para elas. Mas me entristece quando um bichinho que precisa de ajuda, foge com medo. Então desejo muito, muito mesmo falar a língua dele. Essa borboleta linda, entendeu o que eu disse em silêncio, o que eu podia fazer por ela e talvez saiba o que fez por mim.
Ficou a lição:
Asas partidas ainda podem voar.
(outras fotos no photografos)

quinta-feira, setembro 13, 2007

Estação Ipê



Brasília está seca, sedenta por chuva há mais de cem dias. Do meio da paisagem enegrecida pelas queimadas, entristecida pelos gramados mortos ou adormecidos, , surgem belezas contrastantes. Como sempre, viajo pela minha janela. No comecinho do Eixo sul, árvores de folhagem de tom marrom-avermelhado prendem meu olhar...logo mais, ao lado de um buraco, onde uma placa diz que está em obras a Estação 108 do Metrô, um esguio ipê amarelo rouba a cena. Bem que podiam batizar o local de Estação do Ipê. Agora meu olhar amarelou. São muitos ipês de silhuetas retorcidas, como se dançassem, talvez a dança da chuva. Em frente ao Banco Central , o mais belo de todos, vestido de amarelo escandaloso, gritante.Enquanto a primavera não chega, esta é a estação do ipê.
Depois desse presente aos olhos, um aos ouvidos: á hora da Ave Maria, ouço um sabiá (ou uma sabiá como preferia Tom) desafinado (sem trocadilhos)...ainda desconfio que venha do computador de algum dos colegas, ou de um toque de celular...apuro bem os ouvidos e tenho a certeza de que vem pela janela da gaiola de concreto onde estamos todos presos ao “abençoado” trabalho de resolver problemas inventados . Dá vontade de gritar: “gente, ouve o sabiá!” Mas pelas caras, ninguém percebeu o canto do iniciante. Sabiás experientes cantam de um jeito que ao meu ouvir parece: Qui foi Juão, Qui foi juão, qui foi que você fez? Esse novinho, fica só no “qui foi, qui foi”? Então sorrio por dentro. Sei que sabiá é metódico; com certeza voltará muitas outras tardes e poderei dizer: minha janela tem paineira onde canta o sabiá.
A beleza está aí, como em todos os anos, todos os dias, todos os momentos. Basta que nos disponhamos a recebê-la. Amanhece, anoitece, mudam as estações, as fases da lua, os humores e os amores, com platéia ou não.

As coisas são o que são. Significados, daremos ou não.
Próxima estação: IPÊ!

quarta-feira, setembro 05, 2007

"Pensações"


Palavrinhas pensantes de Saramago em "O Conto da Ilha Desconhecida":





"Todas as ilhas, mesmo as conhecidas são desconhecidas, enquanto não desembarcamos nelas."





"Gostar, é provavelmente a melhor maneira de ter. Ter, deve ser a pior maneira de gostar."

quinta-feira, agosto 30, 2007

Gente Brilhante


Gente-estrela está por toda parte! Não falo das celebridades. Falo de gente que “faz diferente”, que sabe aonde está indo e vai, porque tem vontade, porque tem força e tem luz própria. E gente assim, contagia, ilumina quem cruza seu caminho.
Essa semana, recebi luz de três dessas estrelas:

Num programa de TV, vi uma artista plástica, cuja arte tive o prazer de conhecer na cidade de Goiás, que, contrariando os moradores de lá, insistimos em chamar de Goiás Velho. Goiandira do Couto( prima de Cora Coralina), pinta com areias da Serra Dourada; usa areia como se fosse tinta e produz beleza, muita beleza, com a mesma simplicidade com que varre a casa sem luxo onde mora sozinha; nunca se casou, nunca teve filhos. Aos noventa e dois anos, cuida da casa, faz a própria comida sem ajuda de ninguém; numa demonstração invejável de mente sadia, desfia um rosário de nomes de países e cidades onde estão muitos de seus belos quadros. Diz que a receita de tanta vida, é viver em paz, não se preocupar com a vida alheia, fazer e desejar o bem. Suas palavras me deram luz.

Um caixa de supermercado, enquanto passava minha compra, conversava sobre estudo, sobre provas com o colega empacotador que parecia não gostar muito do assunto e apenas sorria; e ele insistia: “ tem que estudar, pra melhorar a vida.” Intrometi-me na conversa e perguntei ao conversador: E você? Está estudando? Respondeu orgulhoso que sim e o colega ajudou, dizendo: esse daí tem um mês que não dorme, só estudando. Perguntei de onde tirava tempo, pois passava das 22 horas e até a meia-noite ele estaria ali passando compras e pelo jeito, feliz da vida, bem-humorado e cheio de sonhos e planos. Disse-me que tempo a gente faz, e que a gente consegue tudo que quer de verdade e que seu sonho é se formar e poder olhar pra trás e dizer que valeu todo o sacrifício. Agradeci pelo atendimento, desejei de coração, boa sorte e saí pensando como é bom ver gente que luta. Um verdadeiro Capelo Gaivota, que não se contenta com o que lhe permitem e quer provar que pode muito mais com as asas que tem.Suas palavras me deram esperança.

A terceira luz, na verdade a primeira, vem de uma cabecinha brilhante, de um menino com nome de anjo de apenas 10 anos. Os pais, meus amigos, fazem parte de um grupo raro que não mede distância quando se trata de educação e sabe mostrar o caminho sem deixar de mostrar a margem. Queria mostrá-lo com foto e tudo, mas sei que é meio encabulado e não ia gostar. Mas quero que meus visitantes vejam o que ele fez. Quero destacar que é o trabalho puro, sem retoque, de um menino de dez anos, bem criado em todos os sentidos, que demonstra, com sensibilidade, conhecimento da realidade crua de quem não tem as mesmas condições que ele. Suas palavras me deram alegria! Alegria de saber que nem todas as crianças se perderam na “rede” do “internetês” ke kom seus “floguxos D+”, “euzinhos” e “fotinhas” vem matando o português . Alegria de saber que muitos ainda rejeitam a cabeça de papelão, mesmo sendo esta mais aceitável.
Eis a obra de um cabrinha da peste, danado de iluminado:



POVO DO NORDESTE

Vou lhe falar sobre o Nordeste
Povo que tem raça
Não tem medo da desgraça
Aproveita a água que é escassa
Povo que mora no sertão
E tem fome de leão.

A política só investe em lugares turísticos
Só ajuda aos ricos
Já no interior
O povo é sofredor
As crianças quando vão para a escola, vão de pau-de-arara
E o político inventa que transporte é coisa cara.

Lá o povo gosta de dançar
Frevo, maracatu, ciranda e boi-bumbá
O povo também gosta de apreciar
Paçoca, carne seca, acarajé e bolo de fubá
Vaquejada não pode faltar
Tem até mundial lá no Ceará.

Lá o povo é fiel
Se comunicava pela literatura de cordel
De capa dura
Feita de xilogravura
E escrevendo todo mundo sacaniou
Com o delegado, Presidente e Senador.

Lá no Maranhão
Tem exploração de ouro e madeira
Também tem a zona canavieira
Lá na Bahia tem milho, coco e bovinos
Cacau, algodão e caprinos
Um povo que tem muita plantação.

O trabalho infantil
No Nordeste tem mais de mil
Crianças raramente vão para a escola
E não é para pedir esmola
É para trabalhar na produção
De milho, arroz e feijão.

Lá no Nordeste nasce
Maranhense, sergipano, alagoano, cearense
Pernambucano, paraibano, baiano, piauiense
Quem nasce no Rio Grande do Norte é potiguá ou norte-rio-grandense
Fale corretamente dessa gente
Pois é um povo que não desiste facilmente.

Você já foi ao Nordeste?
Aposto que não foi no interior
Onde o povo é sofredor
Vamos crescer e mudar esse país
Pois será melhor
Ver o Nordeste ser feliz.

sexta-feira, agosto 24, 2007

O Plantador de Pássaros


O plantador de pássaros


O canto de um bem-te-vi corta a manhã cinza, fria e poeirenta de agosto. Saio à procura do cantor. Lá está, no alto de uma das árvores do Seu Zé. Paro para admirar o bichinho, e pensar na importância do trabalho do Seu Zé. Não sei por que o chamo assim; não sei o nome dele. Sei apenas que há muito tempo, sempre que olho pra rua de frente à minha, vejo aquele senhor “armado” de ferramentas de jardineiro, algumas vezes acompanhado de um garotinho, cuidando de plantas no meio da rua. Sim, cuidando de flores, “ervas de chá”, cultivando árvores em terra pública, no meio da rua, sem muro, sem cerca, sem qualquer marco de posse. Sei que é aposentado, que vive sozinho e, ao que parece, escolheu aproveitar o tempo, plantando, doando seu trabalho a quem dele queira desfrutar. E muitos são os que desfrutam. Garis, homens da Companhia de Água, vendedores e tantos outros que trabalham na rua, aproveitam a sombra para descansar. Cavalos de carroça também. Crianças brincam, subindo nas árvores, hoje, coisa rara de se ver. Já vi muita gente colhendo flores e “remédios”. Eu colho belas imagens. Seu Zé, sem saber, a mim fornece matéria prima para boas fotos. Sem saber, também, hipnotiza-me os ouvidos com alegres sinfonias. Por aqui, antigamente, só havia pardais; agora são bem-te-vis, beija-flores, pássaros-pretos, periquitos e até carcarás. Quanta coisa a aprender com Seu Zé! Vejo que ainda não sei dividir. Se cuidasse de um jardim, não gostaria de ver estranhos metendo o “mãozão”. Talvez ele não veja estranhos. Talvez veja todos iguais, amigos, irmãos. Talvez ele saiba que quem cultiva um jardim, cria asas; que quem planta árvores, colhe pássaros livres, que cantam e encantam...e voam...e vão...e voltam ou não.

terça-feira, agosto 21, 2007

Migozarad


Migozarad!



Há um tempo, a expressão “Vai passar” vem-me perseguindo, ou, melhor piscando feito uma fadinha luminosa a dizer: veja como sou bela e poderosa!
Lendo “O Mundo de Sofia” encontro-a (a expressão) camuflada nestas palavras:

Nada acontece por acaso. Tudo acontece porque tem de acontecer e de nada adianta alguém lamentar a sorte quando o destino bate à sua porta. Também as coisas felizes devem ser aceitas com grande tranqüilidade.”

Em “O Livreiro de Cabul”, depois de “O Caçador de Pipas”, outro bom livro sobre a crueza do regime talibã no Afeganistão, encontro-a num muro, como desabafo de um povo sofrido: “Migozarad” (Vai passar!).

Há poucos dias recebi uma mensagem que se pode resumir assim: Um rei testando a capacidade de um fiel escravo, depois de várias exigências absurdas, determina: “Crie uma frase, que me alegre quando eu estiver triste, e que me deixe triste quando estiver feliz. A frase apresentada foi: Vai passar!
E não é verdade? Daí lembrei-me de outra que ouço de minha mãe, desde que me entendo por gente: Não tem mal que sempre dure, nem tem bem que não se acabe.
E a vontade de escrever sobre isso, veio num fim de tarde, depois de um dia de trabalho daqueles em que a gente tem de engolir verdadeiras jias, porque nem todos os administradores sabem a diferença entre ser chefe e líder nem a diferença entre o ambiente de trabalho e o quintal de casa e ainda usam e abusam do “poder” para deixar suas marcas pessoais, extravasar o veneno da vaidade exagerada, numa declaração muda e burra de que manda quem pode e obedece quem tem juízo. Mas, passa! Passa o poder, a ira, a ansiedade, a insegurança, o medo, a juventude, a beleza, a glória, a paixão, a dor física ou da alma, a fome, a sede. Tudo vai passar, porque tudo é da cera que nos molda e se derrete com o tempo. Somente a chama que nos ilumina e nos faz essência, permanece, apesar dos sopros, dos ventos, das tempestades. Migozarad!

sábado, agosto 11, 2007

...E eu sempre te amando!


A um menino que aos oito anos sabia falar de amor, e aos dez, desenhava vitrais, mamãe coruja, babona assumida tem a dizer, plagiando suas palavras:
...passaram vinte e três anos e eu sempre te amando. Você é o melhor filho do mundo!

Você é o que veio me ensinar a olhar pra frente e pro alto;
Feliz aniversário, filho mio!

quinta-feira, agosto 09, 2007

Rio,rio, rio


Rio, rio, rio.


rio do sorriso patético metálico
rio do sorriso
aquático da iara
rio das quedas, das pedras atiradas,
rio das contas, do canto da sereia,
rio... do sorriso do lagarto, do gato de Alice ,
rio. do sorriso da miss, artifício-dentifrício.
rio do riso
aquoso da hiena
presa, diante da presa,
carnívoro riso...
rio cristalino,
nascente leva à foz,
rio turbilhão , represa traz a luz
rio riso irônico, raivoso, debochado
rio do seu riso amarelo mascarado
rio pro sorriso
banguela inocente,
rio pro sorriso miserável desdentado
rio, Monalisa, seu sorriso enigmático
rio que fecunda, arrasta, leva a vida
rio da cascata, rio da canoa
Rio do Cristo, Rio corcovado
Rio, morro abaixo,
rio mar adentro
Amazonas, Nilo, Tejo
rio mundo afora
rio, que passa! Já não é o mesmo. Rio
Rio... de janeiro a dezembro
Rio, por dentro, bom remédio!
Rio, porque ri e corri á toa.

quarta-feira, agosto 08, 2007

sexta-feira, agosto 03, 2007

Sem açucar, sem afeto


Que fim levaram as crianças-crianças? Aquelas vestidas como crianças, brincando como crianças, calçadas ou descalças como crianças? Cadê os cabelos de anjinhos, as tranças, as bonecas de pano, as cantigas de roda, carrinhos de rolemã, as bolas de meia, o jogo de figurinhas, o pique-pega, o esconde-esconde?
Cadê os pais que ensinavam as crias a respeitar os mais velhos, os doentes, os “diferentes”? cadê os pais que mostravam o caminho, mandavam devolver o troco a mais, ou desfazer a troca de brinquedo feita sem autorização de adultos? Cadê os pais que ajudavam com o “dever de casa”, que não precisavam de “Super Nanny “para dizer: agora não, é muito caro, é muito cedo, já é tarde, arrume a cama, guarde um pedaço pro seu irmão, cuide do cachorro, molhe as plantas...cadê?
Tão “out” (também é fora de moda dizer “fora de moda”) quanto educar criança como criança, é a idéia de família estruturada. Casamento é uma noite de festa, um belo vestido de noiva, tacinhas de champanhe, viagem de lua de mel. Se não houver, “compatibilidade de gênio”? separa! Filhos? Todo mundo quer um lindo bebê “Jhonsons”. E dessas ligas sem alicerce, vem a multidão de pequenos ditadores que exigem dos pais-bananas, a roupa da moda, a mochila da moda, o game da moda, de preferência com muito sangue e muita porrada; e os pais ausentes, vão trocando presença por presentes, delegando o dever ( ou direito) de educar á babá, eletrônica ou não, à tia do colégio (professora também é fora de moda), ao garçom, á polícia, ao mundo.
E aí, quando nos vemos diante de “garotos de classe média” que queimam índio porque parecia mendigo, espancam trabalhadora porque a confundiram com prostituta, vem aquela velha pergunta-chavão: “Por que tanta violência, se têm tudo?”
Na pergunta está a resposta. Talvez tenham “tudo” demais. Tudo o que o dinheiro pode comprar e nada dos valores verdadeiros, dos valores que não se traduzem em cifras.
Talvez se trouxermos de volta a infância, haja menos jovens e adultos sem açúcar e sem afeto, talvez o SER triunfe sobre o TER, talvez a vida valha mais e seja mais doce.

quarta-feira, julho 11, 2007

Prazer em Conhecer


Prazer em conhecer


Expressão pouco usada em nossos dias. Hoje quando nos apresentam alguém quase sempre ficamos no “Oi! Tudo bem?”. Mas por ser pouco usada, estalou-me aos ouvidos dia desses. E dos ouvidos foi pro tutano e ficou martelando. Quando é mesmo que conhecemos alguém? Dizem os mais experientes que duas pessoas só se conhecem, depois, de vivendo debaixo do mesmo teto, juntas comerem um quilo de sal. Acho pouco ainda. Acho mais é que na verdade nunca conhecemos pessoas. Nem mesmo a pessoa que mora dentro de nós, pois quanto mais sabemos, sabemos que nada sabemos. Mas, prazer em conhecer tem significado muito mais amplo, mais profundo. Não tem preço, o prazer de descobrir, de conhecer História, histórias e estórias. Culturas antigas, folclores, pensamentos, artes. É viajando, visitando comunidades, museus, centros históricos, que temos esse prazer mais vivo. Mas também pelas portas que nos abrem os livros, a boa música e os bons filmes, é possível chegar bem perto.
Acabei de fazer uma belíssima viagem por um livro fantástico que me levou ao mundo dos “filo-sofos”, dos amantes da sabedoria. O Mundo de Sofia, de Jostein Gaarder é um curso de filosofia, “disfarçado” de romance, que nos faz sentir personagens do mundo do aprender, viajando ao encontro de Sócrates, Platão, Tales, Aristóteles, Freud e outras tantas cabeças pensantes. Nesse baú de preciosidades, entre o Juramento de Hipócrates, o átomo de Demócrito e tantas outras pedras raras, encantou-me esta jóia:

“Conta-se que um dia, Sócrates parou diante de uma tenda do mercado em que estavam expostas diversas mercadorias. Depois de algum tempo, ele exclamou; “Vejam quantas coisas o ateniense precisa para viver!” Naturalmente ele queria dizer com isso que ele próprio não precisava de nada daquilo.
Essa postura de Sócrates foi o ponto de partida para a filosofia cínica, fundada em Atenas por Antístenes – um discípulo de Sócrates -, por volta de 400 a.C.
Os cínicos diziam que a verdadeira felicidade não depende de fatores externos como o luxo, o poder político e a boa saúde. Para eles, a verdadeira felicidade consistia em se libertar dessas coisas casuais e efêmeras. E justamente porque a felicidade não estava nessas coisas ela podia ser alcançada por todos. E, uma vez alcançada, não podia ser perdida.
O cínico mais importante foi Diógenes, discípulo de Antístenes. Conta-se que ele vivia dentro de um barril e não possuía mais do que uma túnica, um cajado e um embornal de pão. (Desse jeito não era nada fácil roubar dele sua felicidade!) um dia, quando estava sentado ao sol junto ao seu barril, recebeu a visita de Alexandre Magno.Alexandre aproximou-se do sábio, perguntou-lhe se tinha algum desejo e disse-lhe que, caso tivesse, seu desejo seria imediatamente satisfeito. Ao que Diógenes respondeu: “Sim, desejo que te afastes da frente do meu sol”. Com isto, Diógenes mostrou que era mais rico e mais feliz que o grande conquistador que tinha tudo o que desejava.”

Quisera eu, chegar um dia, a desejar tão pouco que tivesse tudo o que desejasse.
Quisera eu, chegar um dia, a necessitar apenas da luz.

“O verdadeiro conhecimento é para o homem, como o sol que fecunda o solo”
(Nikolai Frederik Severin Grundtvig)

terça-feira, junho 26, 2007

Um Lugar Diferente


Um lugar diferente


“Ao entrar, desarme sua mente” – Diz o Aviso. Acho que é preciso mesmo. Não desarmei a minha e fiquei oscilando entre admirar e reprovar. É um recanto de natureza belíssima, bom para acampar, para pescar e fotografar. Vale conhecer. É a “Estância Ecológica do Ligeirinho”...Ligeirinho é Aluísio, um dos integrantes do motoclube “kamikazes”; um homem de barbas e cabelos muito longos, de roupas exóticas que recebe os visitantes com muita simpatia e com mesuras que lembram um mago chinês. A casa dele, aberta a quem quiser entrar, tem quartos sem portas e é uma espécie de museu onde se encontram, amontoados, móveis velhos, álbuns de fotografia da família, livros, discos antigos, arte riquíssima e muita coisa um tanto macabra ( bonecos decepados, esculturas de cabeças sangrentas, coisinhas assim). Uma bela arquitetura “habitada” por um conceito de vida que assusta mentes armadas como a minha, presas a conceitos de organização, limpeza, segurança . Um lugar onde se pode pegar o sol com a mão, ver espetáculos deslumbrantes como um amanhecer totalmente branco de neblina e um pôr-de-sol dourado, conversar com araras, ver pavão no telhado, dividir o caminho com bezerros e cavalos, montar búfalo e avestruz....e ficar matutando os mistérios que envolvem a mente.
Das quase 400 fotos colhidas, divido algumas com você.

sexta-feira, junho 22, 2007

O Amor é Lindo!!!


O Amor é Lindo!


Assim caminha a humanidade, assim caminhamos nós moradores de Brasília orgulhosos de nossa marca registrada: Individualismo. Não conhecemos o vizinho, nem o colega de seção, nem o companheiro de transporte. Cá estamos nós, um “comboio” de indivíduos, no mais profundo significado da palavra. Individualizados, individualistas, cada um com seu umbigo, cada um com seu ouvido, cada um com sua janela. Através da minha, atravesso a paisagem quase sem notar a “barriguda” que exibe uma flor solitária. Ah! Como são belas as flores solitárias! uma só flor em uma árvore nua me enche mais os olhos que um ipê todo florido. Mais um sintoma de individualismo? Talvez. Olho por um instante à minha volta. Caras amarrotadas, sonolentas, entediadas. Algumas ansiosas de olho no relógio. A meu lado uma criança mal dormida, agarra-se à mochila de letras adormecidas. Que será que vai aprender hoje? Vez em quando olha para trás, talvez procure a presença da mãe. Podia ter-me oferecido para trocar de lugar com ela, mas tava muito ocupada com minha janela, e daqui a pouco acaba a viagem para mim. Dou mais uma olhada. Quase todos de ouvidos tapados, cada um com sua música. Brinco de adivinhar o que estão ouvindo. Bobagem! De ouvidos abertos, mas voltados à minha música interior, só ouço o que quero, o que associo a gestos, a roupas, a comportamento. Levanto. A mãe vem correndo pra sua cria que não precisa mais olhar pra trás.
Outro ambiente. Outro núcleo de indivíduos. Espera educada, civilizada. A maioria está só. Os acompanhados falam baixinho, quase ao pé do ouvido para não incomodar. Ótimo. Um casal prende-me a atenção. A mulher aparenta quarenta e muitos. O rapaz, menos de trinta. São parecidos. Têm traços árabes. Ela, um olhar altivo, mas triste apesar do forte delineado a lápis preto. Empurra a cadeira de rodas com jeito de quem ainda não se acostumou àquela missão. Ele com dificuldade de movimentos, gira a cabeça procurando algo pela sala. Um olhar que parece procurar outros olhares para deles fugir. Transmite uma sensação de “quer saber por que estou aqui? ” Ou talvez: “Não me olhe com piedade”. Fujo por um instante, mas volto a eles, alimentando um turbilhão de perguntas. Quem seria ele antes? O que o teria levado àquilo. Velocidade irresponsável no trânsito? Acidente causado por ele mesmo ou por outro? Um mergulho arriscado? Um tombo? algum esporte radical? Uma doença? Esqueço minhas perguntas quando vejo a mulher sentar-se ao lado dele. Estende a mão muito branca de unhas bem pintadas e espera pacientemente. Ele lentamente põe a mão sobre a dela. A mão dela recebe a dele com muito carinho e o olhar que mostra a ele diz, sem uma palavra: Eu te amo, estou com você. É um olhar marejado e um amor que emociona. Não dá pra saber se de mãe pra filho, de irmã pra irmão, de mulher pra homem. É apenas AMOR puro, amor em essência.
Ainda pensando em quanta coisa vivi nessa manhã entro num shopping. À minha frente um casal, com certeza passado dos setenta anos, de mãos dadas. Ela, um passinho adiantada parece a dona da situação naquele momento. Olho bem pra ele. Usa um moleton confortável com cara de pijama, um chapeuzinho que deixa à mostra a ausência de cabelos. Vira-se um pouquinho, vejo uma máscara hospitalar que lhe cobre o rosto quase todo. Sinais de quimioterapia? Fixo-me nas mãos entrelaçadas. Lá também está escrito: Eu te amo. Sigo pela torrente de indivíduos, perguntando-me quantas juras de amor eterno “na saúde e na doença”, sobrevivem. Pelo menos por hoje, meu gelo foi quebrado. Vi por duas vezes o amor e ele continua lindo. Tão lindo que pra ilustrar isso aqui, não quero fotos de casais aos beijos teatrais contra um pôr-de-sol. Quero uma flor, a mais bela rima para o amor.