domingo, abril 19, 2009

MarAmoriMel


http://www.flickr.com/photos/asazul/

Buscando um passeio de trem, descobri um pedaço de céu, cercado de mar por todos os lados, que poderia ser chamado de Paraíso, Marimato, Marivento, Mariflor, Maramor, Marimar, Maricéu... mas se chama Ilha do Mel.Curiosa pela origem do nome, que nada tem a ver com apicultura, ouvi algumas versões que não me convenceram, (se alguém souber, me diga, por favor!), mas acho que é porque o lugar é mesmo doce feito mel.
Descer a Serra do Mar, à velocidade média de 20 km/h, tendo pela janela, beleza de embriagar a alma, conhecer a aconchegante Morretes, cidadezinha linda de morrer, já teria-me encantado; mas, encantada, fascinada, apaixonada, fiquei e estou, pela Ilha doce.
Caminhar, sem preocupação com travessias, por quilômetros de areia sob medida para pés descalços, - lá não circulam carros, motos nem animais de carga; não existem ruas, asfalto nem calçamento – não tem preço.
Fui “conduzida” por Amani, surfista-guia turístico que trabalha em parceria com a Calango Expedições, que por sua vez é parceira (pelo que entendi) da BWT Operadora de Turismo, que também é parceira da Serra Verde e todos em conjunto prestam ótimos serviços que pretendo utilizar outras vezes e recomendar a amigos de alma livre. Além de excelente guia, Amani, o Maninho da comunidade é “pai” de uma linda família que transmite paz e harmonia; é defensor da natureza, engajado em projetos sociais, professor de surfe, querido pelos alunos (que prefere chamar de parceiros de projeto) a julgar pelos espontâneos abraços que lhe dão os “piás” e pela alegria com que o tratam as mães.
Fiquei hospedada na pousada Estrela do Mar, de cara pro reino de Netuno e pro sol poente; lá, aplaudi o amor das pessoas pelos animais; há alimento distribuído pelos jardins para pássaros livres que retribuem a gentileza cantando e encantando; “Noe”, tem gatos bem cuidados e mansos que fazem a festa de crianças e de gente como eu, pois já dizia Jorge Amado, que felicidade é uma rede pra deitar e um gato pra passar a mão (no caso dele, a frase incluía o amor de Zélia).
Vi o espetáculo da lua cheia por trás do bambuzal, tomei café da manhã ao som mágico do bronze de um “mensageiro do vento” que parece entoar uma canção, talvez das “ Encantadas”. (Encantadas é o nome da praia onde fica a pousada e refere-se a uma lenda de sereias); conheci um casal de professores que gostaria de reencontrar; acordei-me antes do sol e vi um homem passeando com marrecos como se fossem cães de estimação; fiquei horas, literalmente, a ver navios e na hora de sair, fui presenteada com um “vôo” de barco.
Na Pousada e Restaurante Fim da Trilha, que transpira arte e bom gosto por todos os poros, comi uma “paella marinera” capaz de fazer Gandhi cometer o pecado da gula.; é que o dono da Pousada é também o “Chef”; enquanto bisbilhotava o local registrando tudo o que podia, com minhas lentes famintas, vi-o belamente paramentado, preparando a tal paella, que leva além de ingredientes de primeira qualidade, mão-cheia de amor pela culinária. “Fim da Trilha” - não poderia haver nome mais significativo, pois de lá não se tem vontade de sair, que o diga o eficiente e simpático garçon que foi passar uma temporada e ali está há dois anos.
Se fosse falar de tudo de bom e belo que vi e senti nessa (quase) Santa Semana, o Blog seria encerrado, por falta de espaço, mas não posso deixar de falar da vista maravilhosa do alto do Farol das Conchas, do nascer de lua na Gruta, do barco chamado “Poesia”, da comida boa do Restaurante Mar e Sol do outro lado da ilha, do “moço do sorriso de menino” que interrompeu sua caminhada para me mostrar, sem pressa alguma, bela seleção de fotos de bichinhos de asas e outras levezas diretamente da câmera, ( o que exige paciência) e noutro dia, cumprimentou-me com carinho de velhos amigos e ainda posou de bom grado, para uma foto com seu parrudo “bassweiller”; que dizer da “caída na vala” (essa é para os ex-colegas do BB) no Morro da Cruz, bem nos braços espinhentos do caraguatá (só pra deixar um pouquinho de sangue e voltar? E do revigorante banho gelado na Bica de Norinho, cercada de juncos e libélulas, das provocantes “papanás” (é assim que os nativos chamam as “minhas” borboletas azuis) exibindo raros balés como a dizer: brindo seu olhar e sua alma, mas não deixo suas lentes me alcançarem.
Ë...depois de tantos presentes dos deuses, posso dizer que esta foi, até agora, a melhor viagem dos meus cinquentinha. Acho que sei onde coMelmorar os cinquentuno...
A quem interessar, aí vai o link com uma amostrinha das mil imagens que colhi:

terça-feira, abril 07, 2009

Sabedoria Indiana


"Quando falar, cuide para que suas palavras sejam melhores que o silêncio"

(provérbio indiano)

sexta-feira, janeiro 30, 2009

Um Hai-Cai


A tarde vai,

A noite cai,

Estou em paz!!!!

As Caras de janeiro


Há dias venho querendo escrever sobre a beleza de janeiro...ou a beleza de Brasília, ou a beleza das manhãs e das tardes de janeiro em Brasília e arredores, que aqui se chamam “entorno”.
Hoje, que janeiro está por um fio, ou por um dia, eis minhas abobrinhas a gorgolejar.
Janeiro, diz a Wikipédia, primeiro mês do calendário juliano e gregoriano; do latim Ianarius em janeiro, homenagem a Jano (ou Janus), deus romano, o porteiro celestial, representado com duas faces. Tudo a ver com o mês de janeiro, que estaria entre o fechar de um ano e o abrir de outro. Uma face voltada para o passado, outra para o futuro. Em janeiro, às vezes, ainda há tempo para “deletar” alguma burrada feita em dezembro e ainda existe um ano inteirinho para por em prática as boas intenções brotadas na “virada”. É tempo de esperar o carnaval, as férias, os feriados, a páscoa, as festas juninas e todas aquelas datas comemorativas que engordam o mercado e as barrigas. É tempo de esperar novo emprego, novo amor (pra quem acredita nele), nova forma, casa nova, nova vida.
Mas o janeiro que me fascina, passa pela minha janela (ah! como gosto de janelas!) em verdes manhãs cantantes de bem-te-vi a beija-flor, em “encantantes” magentas de sóis poentes, em céus azuis de todos os tons, em quaresmeiras floridas mirando-se em espelhos dágua.
Vai, janeiro! Quando voltares estarei um ano mais vivida, mais serena, mais longe de mim, mais perto do renascer.

sexta-feira, novembro 14, 2008

"NÓIS FAIS"




Desde que me entendo por gente, ouço que viver é aprender. E como é! Ouvindo e observando, cada instante vivido é uma lição.

Uma atendente da padaria onde costumo comprar o pão das seis e trinta da matina, chama a atenção pelo bom humor. Para ela não importa o tamanho da fila... tem sempre um sorriso e um BOM-DIA, vindo do coração, mesmo que o “freguês” apenas rosne com a cara amarrada ainda sonolenta. Hoje ela dirigiu um sonoro Bom-dia a uma garota tipicamente adolescente. A mocinha, com cara de desdém, respondeu arrastando a preguiça: é...tomara que seja “mermo” né? A senhora mais animada ainda: “Se o dia não for bom, nóis fais ele ser”.

Fiz meu trajeto de volta pensando nessa mensagem de otimismo.

Lá onde tô preparando chão pra fincar minhas raízes, tenho convivido com pessoas que trabalham pesado de sol a sol, sem reclamar de salários, sempre dispostas a produzir mais, a ajudar a quem precisar e ainda têm tempo pra uma prosa sadia; e se a gente pergunta como conseguem tempo pra tanta coisa, respondem sorrindo: “Tempo, nóis fais”.

Com certeza, essa gente não leu aqueles famosos livrinhos que nos ensinam a fazer limonada dos limões que a vida nos oferece ou a observar que o copo meio vazio é o mesmo meio cheio, visto por outra ótica....mas sabem na prática e nos ensinam a valorizar o que deve ser valorizado. Que eu aprenda a fazer tempo pras coisas que valem a pena e que eu saiba tornar bons os dias que possam parecer ruins!

Que seja BOM o nosso DIA!

segunda-feira, novembro 10, 2008

"Mea" Luz


Treva, treva,treva...
Tremeluz
A luz
da vela
nada, nada além do breu
Luz??? Pra quê???
Se há luz cá dentro d’eu?
Dentro vejo
clara mente
lua cheia
morna chama
alma serena
em plena paz.

Meia-taça, demi-sec
Brindo um seculo
menos meio
eu comigo
meio a sós
meio a sonhos,
meio a sons a meia-voz...

São mistério os sons da noite
Como mistério é o tempo
Entre nascente e poente,
Entre fim e recomeço,
É o meio por um fio.

Ao longo do meio-fio
Sigo...prossigo...
Persigo asas
Meio a folhas
Meio a secas e molhados
A perdidos e achados

Ao largo do meio, inteira
Ao meio do dia paro.
Ao peso do meio, largo.
Do meio-amargo largada.

Ao longo do meio, fio
Teço a malha
Em que me aqueço
Ponto a ponto,
Anoiteço.
Amanheço.
Clara mente, iluminada

sexta-feira, novembro 07, 2008

Voltei!


Andei afastada...nem encasulada, nem enclausurada. Foram dias de “concreto’ em que o sonho ficou de lado...dias de mudanças, reforma, reconstrução. Mas alma de passarinha não vive sem as levezas dos sonhos. Cá estou, de volta a meu celeiro de abobrinhas, minha casa quase abandonada.Então, mãos à obra! Hora de afastar as teias de aranha, as ervas daninhas, cuidar do jardim para que voltem as borboletas e os passarinhos; hora de abrir as janelas pros sóis nascentes ou poentes, pras chuvas fininhas, pras luas novas ou cheias. Reabrindo a casa, penduro na parede da sala um presente que recebi do meu terceiro sobrinho, aquele de quem falei em “Gente Brilhante” há um tempinho, lembram? Agora, tem onze anos e brilha no Colégio Militar de Brasília, tem o nome registrado na “Garança Poética 2008”, uma coletânea de trabalhos de alunos marcando os trinta anos do Colégio.
Eis o poema:

Os pais

(Gabriel Rodrigues Soares)

Como podemos responder
Aos nossos pais
Se são nossa fonte de saber,
De alegria e de outras mais.

Os meus vieram do Piauí
Trabalharam muito ali.
Cresceram e estudaram
E o meu futuro abençoaram.

Não me dão presente de aniversário,
Mas o conhecimento necessário
Tenho em mente,
E esse é o melhor presente.

Tenho de agradecer
Pelos pais que pude ter.
São meus melhores amigos
E quero que estejam sempre comigo.

quarta-feira, março 26, 2008

Simplesmente Maria



Há alguns dias, numa sala de espera, em poucos minutos ouvi chamarem três marias, não marias somente...Fiquei pensando em quantas marias conheço, quantas marias encarnei ...foi embalada nessas “pensações” e na sonoridade, na beleza e na força desse nome que designa qualquer mulher, que “pari” isto aí:


Simplesmente Maria


Maria mãe do filho de Deus

Maria filha de qualquer um

Maria do Céu, Maria Celeste

Maria Clara, Maria da Luz

Maria Lua, Maria sem teto

Maria nua, Maria pura

Maria Santa

Maria virgem, Maria perdida

Maria Guia, Aparecida

Maria do Carmo, Maria do Barro

Maria do Bairro, Maria da Rua

Maria das Dores, dos Remédios

Maria Dolores

Maria das Graças, Maria da Glória

Maria da Penha, da Piedade

do Socorro, da Trindade

Maria dos Anjos

da Paixão, da Conceição

Auxiliadora, da Consolação

Do Rosário, do Amparo

Maria Betânia, de Santo Amaro

Maria Amélia, Maria Helena

Maria Marta, Maria amada

Imaculada, Anunciada,

do Desterro, da Soledade

Maria Pia,

Maria Augusta, Maria Altiva,

Maria Bonita,

Maria João, Maria de João

Maria Branca, Maria Preta

Maria Rosa, Açucena

Margarida, Maria Pietra

Ametista, Esmeralda

Maria Flor, Maria Menina

Mariazinha

Maria qualquer

Maria mulher

Maria

Simplesmente Maria.


quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Retrato em branco e preto


Meu caderninho de bordo anda meio esquecido...tanto quanto as telas e tintas.As lentes, o “sudoku”e os livros, não! Tenho diversificado meus prazeres e afazeres. Agora ando de amores com a terra, encantada com partos de sementes e crescer de mudas. Lembram aquele meu “Projeto pra daqui a pouco”? Pois é...chegou! Mas entre um brotar e outro, o prazer de belas páginas entrando pelos olhos, acordam lembranças e instigam os dedos.
A fala de uma personagem do delicioso livro “Retrato em Sépia” de Isabell Allende levou-me a refletir sobre uma bela herança: Paixão pela fotografia.
Um dia olhando fotos de família, vejo uma que destoa da época e é a minha preferida. Sempre que fomos fotografados, quando pequenos, estávamos impecáveis, de roupa domingueira, cabelinhos caprichados. Nessa de que falo, me vejo uma molequinha magrela, quase nua, num quintal, pega de surpresa. Quis saber quem tinha feito...minha mãe diz que foi meu pai, que tinha uma Kodak. Ah! Seu João, então herdei mais essa de você hein? Naquela época, um homem pobre, que vivia correndo mundo pra ganhar o pão, dar-se o luxo de ter uma máquina fotográfica, só podia ser por muita paixão mesmo.

Eis o belo texto, que parece um retrato de minha alma e que levou-me ao baú de lembranças:



"...Ao ser observado com verdadeira atenção, um objeto ou corpo de aparência comum transforma-se em algo sagrado. A câmara pode revelar os segredos que o olho desarmado ou a mente não captam; tudo desaparece, salvo aquilo que é enfocado no quadro. A fotografia é um exercício de observação, e o resultado é sempre um golpe de sorte;..."
"...A câmara é um aparelho simples; mesmo o indivíduo mais inepto pode usá-la; o desafio consiste em criar com sua ajuda aquela combinação de verdade e beleza que se chama arte. Essa busca é sobretudo espiritual. Procuro verdade e beleza na transparência de uma folha no outono, na forma perfeita de um caracol na areia da praia, nas curvas de um torso feminino, na textura de um velho tronco, mas também naquelas formas escorregadias da realidade. Algumas vezes, ao trabalhar com uma imagem em meu quarto escuro, aparece a alma de uma pessoa, a emoção de um evento ou a essência vital de um objeto, e nesse momento a gratidão explode em meu peito, e não posso evitar que meu pranto se solte. É para essa revelação que meu ofício aponta...."

sexta-feira, dezembro 07, 2007

Com quantos tijolos?


Quando criança, tinha em casa um calendário, que minha mãe chamava marca-mês. Era uma placa de plástico imitando azulejo, com o desenho de uma linda casinha azul e a inscrição: “Casa é feita de pedra, lar é feito de amor”...nesse tempo minha casa era de madeira, mas o lar era mesmo de amor. Foi amor que uniu a filha de um comerciante bem “remediado”, lá na Paraíba, a um cabra corajoso que quando a pediu em casamento, disse que tinha por casa o chapéu e de riqueza, os braços para trabalhar... ela aceitou e viveram em união, na saúde e na doença, na tristeza e na alegria, nas lutas e vitórias, no mais verdadeiro sentido de lar até que a morte os separou.
Vejo lares tão quebradiços, que fingem se consertar com o piso de mármore na casa reformada, com o carro novo, com uma jóia, com a viagem dos sonhos... Então me pergunto: com quantos tijolos, com quantos "cavalos", com quantos quilates ou com quantas milhas se constrói um lar?
Ainda prefiro acreditar no “marca-mês”: “Lar é feito de Amor”

quinta-feira, dezembro 06, 2007

Entretantas...


Entretantas


Entre nuvens uma lua
Entre curvas uma rua
Entre tantas almas nuas
Uma alheia,
Uma minha,
Outra sua...
Uma sua, pinga sal
Outra lacrimeja fel
Uma ri como outra ria
Como ria
Outra geme
Da mesma dor que sentia
Do mesmo sentir que doía
Entre pedras, uma gema
Entre as pernas um poema
Entre flores a espinha
Atravessando a garganta
Uma dança...
A outra canta...
Entre claras,
Nuvem negra
Entre mudas, uma cega
Uma chega, a outra vai
Uma perde, a outra leva
Uma aurora, a outra hiberna
Uma antena, a outra terra
Uma asa, a outra perna
Entre perdas e feridas
A amarga descoberta
O roubado é só veneno
O amado é sulfurino
Lentamente corroendo
O que entre sonhos via
O que amor parecia
O que parecia poesia
Entre tantas, uma outra...

quinta-feira, novembro 15, 2007

Das coisas que nunca foram



Há poucos dias, recebi uma bela mensagem, acompanhada deste instigante pensamento:

"Você vê as coisas como elas são e pergunta: por quê?
Mas eu sonho com coisas que nunca foram e pergunto: por que não?"
(Bernard Shaw)


Pensamentos são para pensar e eu pensei:

Houve tempo em que as coisas que nunca foram me fascinaram, me empurraram (ou me puxaram).
Arroubos, impulsos, querer diferente, paixões inconseqüentes, sonhos de amor eterno, onde “não importavam opiniões alheias”, tudo isso vivi e tudo é passado. Já não me cai bem, como não me cai bem usar saiinha colegial e cabelo “maria-chiquinha”. Olhando para trás vejo o querer sonhar com as coisas que nunca foram como impetuosas quedas d’água que em algum ponto serão águas calmas.
Hoje prefiro a serenidade dos lagos que refletem o real das coisas que são, pois estas, com boa margem de acerto, mostram as coisas como serão.
As coisas que nunca foram, são o amanhã que logo, logo será hoje, que por sua vez será ontem.

Mnemo


Mnemo

Branca espuma de algodão
Doce nuvem , coração
De abóbora,
De vidro ou de leão
Flor do mato, flor do “Rio”
“baronesa”, malmequer
“desfolhada”, chão de ipê
Pétala seca, página virada
Retrato marrom, carta amarelada
Primeiro beijo, última noite
Outra mentira, dor de açoite
Quarto minguante, olho crescente
Lua cheia, veia latente
Candeia vazia, alma vadia
Margarida e marguerita
Nove luas, “liberté”
Cuba libre e “igualité”
Quatro queijos, quatro cantos,
um trinado, um gorjeio,
três desejos, muitos contos
Mil e uma noites nuas
Olhos dágua, furta-cores
Sete curvas, sete dores,
Sete quedas,
sete véus e chapeuzinhos
três porquinhos
três marias,
três valias.
bambalalão, Senhor Capitão
Bolinhas de sol, bolhão de sabão
Cheiro de mar, de onda quebrada
Cheiro de mel, balinha esperada
Gosto de sal, gosto de fel
Feliz idade da pedra encantada
Encanto de estrada, viagem, miragem
Olhar de saudade, fechando o portão
Do tempo que o vento leva
Do tempo que o vento traz.
Tudo é memória, tudo é história.

“A História é um romance que foi. O romance é a história que poderia ter sido.”
(Edmond e Jules Goncourt)

domingo, outubro 28, 2007

Com outros olhos


Acho que tudo que se vive bem vivido dá lugar a reflexões. As pessoas, as coisas, as cidades não são. Estão. E podem estar belas, horrendas, alegres, tristes, coloridas ou cinzentas dependendo do nosso espírito. Sempre gostei de viajar. Mas houve época em que fui obrigada a fazer isso, a trabalho e com muita responsabilidade. Três a quatro vezes por ano, tinha de ir à cidade de São Paulo, fazer compras para a loja onde trabalhava. São Paulo era cinzenta, fria, significava insônia, gastrite, medo de assalto. Quando alguém me perguntava se gostava de São Paulo, respondia: Detesto.
Há poucos dias, de férias, passando uma tarde em São Paulo, vi uma cidade alegre, abrigo de todas as tribos, línguas e cores. Cidade onde mulheres sozinhas podem tomar cerveja tranquilamente em um barzinho de calçada, sem serem olhadas como bichos raros ou como vadias; cidade onde o trânsito infernal convive com belos espaços arborizados, onde pessoas passeiam com seus cachorros, onde se come pipoca e se vai a feira de livros, onde intensa vida cultural nos convida a voltar. Mas dessa vez São Paulo era apenas um ponto de partida para a beleza fria e acolhedora da Serra Gaúcha, continuando pela majestade das Cataratas do Iguaçu. Aqui também, cabe dizer que meu olhar era meio fechado e que muitas vezes deixei de lado a idéia de conhecer o sul, pela opinião pré-concebida e baseada em comentários de que o sulista é mal educado e não recebe bem visitantes. Não foi o que vi. Pelo menos nas cidades por onde passei , - Curitiba, Gramado, Canela, Nova Petrópolis, Bento Gonçalves, Caxias do Sul, Garibaldi, Antônio Prado e Foz do Iguaçu – minha cara nordestina assustou ninguém. Seja em Curitiba, que tem servido de modelo para outras cidade do país e do mundo, seja na zona rural,vi um povo muito educado, organizado e desenvolvido. Foi a minha melhor viagem. Voltei de alma limpinha, lavada com vinho e neblina e tatuada de belezas que parecem ter saído de algum conto de fadas.
A minha famosa meia dúzia, convido visitar o novo álbum de fotos: Coisas do Sul, onde coloquei uma amostrinha do que vi e registrei.

Ainda não me achei no tal do Flickr para onde foram migrados os álbuns do Yahoo; estou aprendendo a me organizar, mas vá lá. O endereço é: http://www.flickr.com/photos/asazul/

terça-feira, outubro 09, 2007

Camadas de tinta




Ganhei uma cabaça...certamente “saberia o que fazer com ela”. Foi colhida verde, mas depois de uma cirurgia “estripadora”, muita lavagem e muito sol, a cabaça estava pronta para receber tinta. Agora, a vez da cabeça. E era tanta idéia, que haja cabaça. Sei lá por que, talvez inspirada pela leitura sobre as terras das burcas, imaginei uma cabaça azul- céu com arabescos dourados. Pintei. Não gostei. Foi a coisa mais brega que saiu das minhas mãos; um verdadeiro azul-calcinha com rabiscos dourados. Uma camada de tinta branca deixou a cabaça novinha esperando outro comando da cabeça. O que seria? Algo parecido com arte marajoara? Quem sabe, bege e marrom ou flores em tons “desmaiados”, lembrando retratos antigos? Ou uma “nega maluca” em cores vivas? Ou uns abstratos em vermelho e preto? Ou barras gregas em preto e dourado? Ou?...De tanto “Ou”, saiu foi nada e a cabaça ficou meses esperando quietinha. Agora, sem quê nem pra quê, num repente de pouco mais de uma hora a cabaça virou melancia. Mas, percebi que meu impulso impediu-me de lembrar que a cabaça tinha uma cicatriz e que teria ficado bem legal do lado da casca, não do miolo. “Acho que vou virar a bicha do avesso!” O miolo vira casca e a casca vira miolo...Simples assim! Mais uns dias de dúvida, mais uma camada de tinta branca e eis minha melancia, do jeito que eu queria. E um pensamento: Pena que na vida, não se pode sobrepor camadas de tinta! Não dá para transformar abóbora em carruagem, cabaça oca em fruta suculenta, nem para mudar as cores e os rumos de nossas escolhas. Quase sempre, não há tempo para passar a limpo os rascunhos.

sexta-feira, setembro 21, 2007

O dia em que tive uma borboleta na mão





Já fui tocada, ou melhor, “adejada” por borboletas. Um dia até ganhei de presente um balé inesquecível de uma bela “asazul”. Mas, sempre quis muito, tocar uma delas. Essa semana, vivi essa experiência, esse desejado toque. Não sei de onde, uma bela alaranjada veio parar dentro de casa, bem cedinho. Debatendo-se em busca da saída, partiu uma asa. Lá vou eu, rastejando, me enfiando atrás de móveis tentando ajudá-la. Tentei fazê-la entrar num caneco, não consegui. Tentei com uma folha de papel, fez uma pequena pausa e continuou se batendo. Não queria pegar pelas asas com medo de machucar. Acabei conseguindo chegar bem perto, ofereci a mão e ela aceitou. Fiquei deslumbrada e pensei: Que foto eu vou perder! Mas o importante era salvar a bichinha. Nunca vou entender porque confiou em mim, e ficou quieta na minha mão. Levei-a pro jardim, torcendo para que voasse. Ia ficar sem foto, mas feliz por vê-la livre. Coloquei-a num cacho de hortênsias e ficou parada, abrindo e fechando as asas. Já que não ia embora, fui buscar a câmera para fotografá-la. Ofereci a mão de novo e de novo ela aceitou. Não dava par acreditar que havia uma borboleta pousada em meus dedos.Fiz fotos tremidas de emoção e pela incômoda posição de fotografar com uma mão só. Devolvi-a ao ramo de flores e por mais de meia hora fiquei observando-a. Nunca desejei tanto que partisse algo que sempre quis por perto. Em um minutinho que entrei em casa, sumiu. Desconfiei que a gata a tivesse matado, procurei pelo chão, pelas flores e nada. Algumas horas depois quando saía para trabalhar vi minha fadinha cor de labareda voando como a se despedir. Fiquei feliz, muito feliz! Não me aborrece por muito tempo, que pessoas se afastem de mim ou delas me afastem. Pessoas sabem o que é melhor para elas. Mas me entristece quando um bichinho que precisa de ajuda, foge com medo. Então desejo muito, muito mesmo falar a língua dele. Essa borboleta linda, entendeu o que eu disse em silêncio, o que eu podia fazer por ela e talvez saiba o que fez por mim.
Ficou a lição:
Asas partidas ainda podem voar.
(outras fotos no photografos)

quinta-feira, setembro 13, 2007

Estação Ipê



Brasília está seca, sedenta por chuva há mais de cem dias. Do meio da paisagem enegrecida pelas queimadas, entristecida pelos gramados mortos ou adormecidos, , surgem belezas contrastantes. Como sempre, viajo pela minha janela. No comecinho do Eixo sul, árvores de folhagem de tom marrom-avermelhado prendem meu olhar...logo mais, ao lado de um buraco, onde uma placa diz que está em obras a Estação 108 do Metrô, um esguio ipê amarelo rouba a cena. Bem que podiam batizar o local de Estação do Ipê. Agora meu olhar amarelou. São muitos ipês de silhuetas retorcidas, como se dançassem, talvez a dança da chuva. Em frente ao Banco Central , o mais belo de todos, vestido de amarelo escandaloso, gritante.Enquanto a primavera não chega, esta é a estação do ipê.
Depois desse presente aos olhos, um aos ouvidos: á hora da Ave Maria, ouço um sabiá (ou uma sabiá como preferia Tom) desafinado (sem trocadilhos)...ainda desconfio que venha do computador de algum dos colegas, ou de um toque de celular...apuro bem os ouvidos e tenho a certeza de que vem pela janela da gaiola de concreto onde estamos todos presos ao “abençoado” trabalho de resolver problemas inventados . Dá vontade de gritar: “gente, ouve o sabiá!” Mas pelas caras, ninguém percebeu o canto do iniciante. Sabiás experientes cantam de um jeito que ao meu ouvir parece: Qui foi Juão, Qui foi juão, qui foi que você fez? Esse novinho, fica só no “qui foi, qui foi”? Então sorrio por dentro. Sei que sabiá é metódico; com certeza voltará muitas outras tardes e poderei dizer: minha janela tem paineira onde canta o sabiá.
A beleza está aí, como em todos os anos, todos os dias, todos os momentos. Basta que nos disponhamos a recebê-la. Amanhece, anoitece, mudam as estações, as fases da lua, os humores e os amores, com platéia ou não.

As coisas são o que são. Significados, daremos ou não.
Próxima estação: IPÊ!

quarta-feira, setembro 05, 2007

"Pensações"


Palavrinhas pensantes de Saramago em "O Conto da Ilha Desconhecida":





"Todas as ilhas, mesmo as conhecidas são desconhecidas, enquanto não desembarcamos nelas."





"Gostar, é provavelmente a melhor maneira de ter. Ter, deve ser a pior maneira de gostar."

quinta-feira, agosto 30, 2007

Gente Brilhante


Gente-estrela está por toda parte! Não falo das celebridades. Falo de gente que “faz diferente”, que sabe aonde está indo e vai, porque tem vontade, porque tem força e tem luz própria. E gente assim, contagia, ilumina quem cruza seu caminho.
Essa semana, recebi luz de três dessas estrelas:

Num programa de TV, vi uma artista plástica, cuja arte tive o prazer de conhecer na cidade de Goiás, que, contrariando os moradores de lá, insistimos em chamar de Goiás Velho. Goiandira do Couto( prima de Cora Coralina), pinta com areias da Serra Dourada; usa areia como se fosse tinta e produz beleza, muita beleza, com a mesma simplicidade com que varre a casa sem luxo onde mora sozinha; nunca se casou, nunca teve filhos. Aos noventa e dois anos, cuida da casa, faz a própria comida sem ajuda de ninguém; numa demonstração invejável de mente sadia, desfia um rosário de nomes de países e cidades onde estão muitos de seus belos quadros. Diz que a receita de tanta vida, é viver em paz, não se preocupar com a vida alheia, fazer e desejar o bem. Suas palavras me deram luz.

Um caixa de supermercado, enquanto passava minha compra, conversava sobre estudo, sobre provas com o colega empacotador que parecia não gostar muito do assunto e apenas sorria; e ele insistia: “ tem que estudar, pra melhorar a vida.” Intrometi-me na conversa e perguntei ao conversador: E você? Está estudando? Respondeu orgulhoso que sim e o colega ajudou, dizendo: esse daí tem um mês que não dorme, só estudando. Perguntei de onde tirava tempo, pois passava das 22 horas e até a meia-noite ele estaria ali passando compras e pelo jeito, feliz da vida, bem-humorado e cheio de sonhos e planos. Disse-me que tempo a gente faz, e que a gente consegue tudo que quer de verdade e que seu sonho é se formar e poder olhar pra trás e dizer que valeu todo o sacrifício. Agradeci pelo atendimento, desejei de coração, boa sorte e saí pensando como é bom ver gente que luta. Um verdadeiro Capelo Gaivota, que não se contenta com o que lhe permitem e quer provar que pode muito mais com as asas que tem.Suas palavras me deram esperança.

A terceira luz, na verdade a primeira, vem de uma cabecinha brilhante, de um menino com nome de anjo de apenas 10 anos. Os pais, meus amigos, fazem parte de um grupo raro que não mede distância quando se trata de educação e sabe mostrar o caminho sem deixar de mostrar a margem. Queria mostrá-lo com foto e tudo, mas sei que é meio encabulado e não ia gostar. Mas quero que meus visitantes vejam o que ele fez. Quero destacar que é o trabalho puro, sem retoque, de um menino de dez anos, bem criado em todos os sentidos, que demonstra, com sensibilidade, conhecimento da realidade crua de quem não tem as mesmas condições que ele. Suas palavras me deram alegria! Alegria de saber que nem todas as crianças se perderam na “rede” do “internetês” ke kom seus “floguxos D+”, “euzinhos” e “fotinhas” vem matando o português . Alegria de saber que muitos ainda rejeitam a cabeça de papelão, mesmo sendo esta mais aceitável.
Eis a obra de um cabrinha da peste, danado de iluminado:



POVO DO NORDESTE

Vou lhe falar sobre o Nordeste
Povo que tem raça
Não tem medo da desgraça
Aproveita a água que é escassa
Povo que mora no sertão
E tem fome de leão.

A política só investe em lugares turísticos
Só ajuda aos ricos
Já no interior
O povo é sofredor
As crianças quando vão para a escola, vão de pau-de-arara
E o político inventa que transporte é coisa cara.

Lá o povo gosta de dançar
Frevo, maracatu, ciranda e boi-bumbá
O povo também gosta de apreciar
Paçoca, carne seca, acarajé e bolo de fubá
Vaquejada não pode faltar
Tem até mundial lá no Ceará.

Lá o povo é fiel
Se comunicava pela literatura de cordel
De capa dura
Feita de xilogravura
E escrevendo todo mundo sacaniou
Com o delegado, Presidente e Senador.

Lá no Maranhão
Tem exploração de ouro e madeira
Também tem a zona canavieira
Lá na Bahia tem milho, coco e bovinos
Cacau, algodão e caprinos
Um povo que tem muita plantação.

O trabalho infantil
No Nordeste tem mais de mil
Crianças raramente vão para a escola
E não é para pedir esmola
É para trabalhar na produção
De milho, arroz e feijão.

Lá no Nordeste nasce
Maranhense, sergipano, alagoano, cearense
Pernambucano, paraibano, baiano, piauiense
Quem nasce no Rio Grande do Norte é potiguá ou norte-rio-grandense
Fale corretamente dessa gente
Pois é um povo que não desiste facilmente.

Você já foi ao Nordeste?
Aposto que não foi no interior
Onde o povo é sofredor
Vamos crescer e mudar esse país
Pois será melhor
Ver o Nordeste ser feliz.

sexta-feira, agosto 24, 2007

O Plantador de Pássaros


O plantador de pássaros


O canto de um bem-te-vi corta a manhã cinza, fria e poeirenta de agosto. Saio à procura do cantor. Lá está, no alto de uma das árvores do Seu Zé. Paro para admirar o bichinho, e pensar na importância do trabalho do Seu Zé. Não sei por que o chamo assim; não sei o nome dele. Sei apenas que há muito tempo, sempre que olho pra rua de frente à minha, vejo aquele senhor “armado” de ferramentas de jardineiro, algumas vezes acompanhado de um garotinho, cuidando de plantas no meio da rua. Sim, cuidando de flores, “ervas de chá”, cultivando árvores em terra pública, no meio da rua, sem muro, sem cerca, sem qualquer marco de posse. Sei que é aposentado, que vive sozinho e, ao que parece, escolheu aproveitar o tempo, plantando, doando seu trabalho a quem dele queira desfrutar. E muitos são os que desfrutam. Garis, homens da Companhia de Água, vendedores e tantos outros que trabalham na rua, aproveitam a sombra para descansar. Cavalos de carroça também. Crianças brincam, subindo nas árvores, hoje, coisa rara de se ver. Já vi muita gente colhendo flores e “remédios”. Eu colho belas imagens. Seu Zé, sem saber, a mim fornece matéria prima para boas fotos. Sem saber, também, hipnotiza-me os ouvidos com alegres sinfonias. Por aqui, antigamente, só havia pardais; agora são bem-te-vis, beija-flores, pássaros-pretos, periquitos e até carcarás. Quanta coisa a aprender com Seu Zé! Vejo que ainda não sei dividir. Se cuidasse de um jardim, não gostaria de ver estranhos metendo o “mãozão”. Talvez ele não veja estranhos. Talvez veja todos iguais, amigos, irmãos. Talvez ele saiba que quem cultiva um jardim, cria asas; que quem planta árvores, colhe pássaros livres, que cantam e encantam...e voam...e vão...e voltam ou não.