sexta-feira, dezembro 07, 2007

Com quantos tijolos?


Quando criança, tinha em casa um calendário, que minha mãe chamava marca-mês. Era uma placa de plástico imitando azulejo, com o desenho de uma linda casinha azul e a inscrição: “Casa é feita de pedra, lar é feito de amor”...nesse tempo minha casa era de madeira, mas o lar era mesmo de amor. Foi amor que uniu a filha de um comerciante bem “remediado”, lá na Paraíba, a um cabra corajoso que quando a pediu em casamento, disse que tinha por casa o chapéu e de riqueza, os braços para trabalhar... ela aceitou e viveram em união, na saúde e na doença, na tristeza e na alegria, nas lutas e vitórias, no mais verdadeiro sentido de lar até que a morte os separou.
Vejo lares tão quebradiços, que fingem se consertar com o piso de mármore na casa reformada, com o carro novo, com uma jóia, com a viagem dos sonhos... Então me pergunto: com quantos tijolos, com quantos "cavalos", com quantos quilates ou com quantas milhas se constrói um lar?
Ainda prefiro acreditar no “marca-mês”: “Lar é feito de Amor”

quinta-feira, dezembro 06, 2007

Entretantas...


Entretantas


Entre nuvens uma lua
Entre curvas uma rua
Entre tantas almas nuas
Uma alheia,
Uma minha,
Outra sua...
Uma sua, pinga sal
Outra lacrimeja fel
Uma ri como outra ria
Como ria
Outra geme
Da mesma dor que sentia
Do mesmo sentir que doía
Entre pedras, uma gema
Entre as pernas um poema
Entre flores a espinha
Atravessando a garganta
Uma dança...
A outra canta...
Entre claras,
Nuvem negra
Entre mudas, uma cega
Uma chega, a outra vai
Uma perde, a outra leva
Uma aurora, a outra hiberna
Uma antena, a outra terra
Uma asa, a outra perna
Entre perdas e feridas
A amarga descoberta
O roubado é só veneno
O amado é sulfurino
Lentamente corroendo
O que entre sonhos via
O que amor parecia
O que parecia poesia
Entre tantas, uma outra...